Jorge Sampaio, um cidadão do mundo

(Clara Ferreira Alves, in Expresso, 10/09/2021)

Foi um político socialista culto, lido, foi um ilustre humanista no que de melhor tem a estafada palavra. E foi um ilustre descendente de judeus cultos e dedicados a melhorarem o mundo. Foi um homem devotado aos direitos humanos e à diplomacia como solução principal de conflitos. Mais do que o Presidente, a quem a democracia portuguesa deve também os modos de elegância e o cosmopolitismo internacionalista que depois perderia, sinto a falta do homem, do ser humano, da personagem. Do sorriso ágil de pássaro que tudo observa com discrição.

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Atento aos negócios internacionais, tinha um particular interesse pelo Médio Oriente, que visitou várias vezes, e pelo insanável conflito israelo-palestiniano. Sentia-se moralmente implicado. Em Belém ou no gabinete pós-presidencial e no cargo de Alto Representante para a Aliança das Nações, costumava telefonar-me quando rebentava mais uma guerra naqueles territórios. Mais do que interessar-se, foi ele o motor e a vitalidade dessa defunta Aliança das Nações, um consórcio internacional à sombra das Nações Unidas para promover a reconciliação entre o mundo ocidental e o mundo muçulmano que por esses tempos era visto como um inimigo civilizacional.

Estive com ele tantas vezes em tantas circunstâncias que nem sei o que posso destacar. Sampaio acompanhou a geração do 25 de Abril, um centrista esquerdista ao jeito social-democrata quando a palavra representava uma ontologia da decência e da prudência, e um político que não abdicava da ideologia e da cultura da ideologia. Foi um europeísta convicto que pensou e repensou o alargamento e analisou a necessidade de uma Constituição europeia. Os encontros de Arraiolos nasceram daí.

Recordo uma ida à Turquia em presidencial visita de Estado (fui na qualidade de Diretora da Casa Fernando Pessoa) onde percebi que ele tinha uma visão alargada e absolutamente certeira do papel estabilizador que a Turquia poderia ter na Europa se a Europa não lhe voltasse as costas.

Erdogan era por esse tempo um europeísta e foi a humilhação infligida pela União Europeia com avanços e recuos e argumentos de exclusão, onde a França teve um papel determinante, que justificaram a escolha do Golfo Pérsico e dos países árabes como aliados principais. E, mais tarde, da Rússia, como sabemos. E ditaram algum do despotismo e autoritarismos posteriores. Sampaio estava tão certo.

Noutra viagem, em Doha, Qatar, mais uma vez vi Jorge Sampaio atuar dentro da Aliança das Nações, percebendo que embora a monarquia absolutista do país lhe desagradasse, o Qatar se colocava, com os seus recursos inesgotáveis (gás natural) e a sua ambição política e diplomática, como um interlocutor essencial nas grandes questões do Médio Oriente e dos Estados Unidos da América no mundo pós-11 de Setembro. Olha-se para o Afeganistão hoje e Sampaio acertou, mais uma vez. Estamos a um dia dos 20 anos do 11 de Setembro e tenho pena de já não poder ouvir Jorge Sampaio sobre a data de amanhã.



Não creio que haja muito sucessores deste senhor brando e educado que conseguia ser de uma teimosia e de uma firmeza argumentativa inabaláveis quando se tratava da substância do diálogo e da certeza de que temos de fazer tudo o que é possível para tornar este mundo mais pacífico, seguro, justo e igual. E livre. Ele fez.


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Um pensamento sobre “Jorge Sampaio, um cidadão do mundo

  1. Excelente artigo. Retrata, com precisão, o pensamento de Jorge Sampaio. Que, com ele privou, eu tive essa felicidade, foi meu Líder Parlamentar, sabemos como era brando, atento ao seu próximo, mas determinado na hora da decisão e do cumprimento do dever. Deixa uma enorme saudade, mística e realista. Quem com ele privou ficou com marcas profundas no seu coração. Na Política, como em tudo da vida, há pessoas muito boas e de grande carater. Jorge Sampaio deixa esse exemplo a seguir por todos.

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