O juiz perigoso

(Por Valupi in Blog Aspirina B, 01/04/2021)

Rui Pedro Castro

Rui Pedro Castro, o juiz que se filmou a desafiar o director nacional da PSP para uma luta corpo a corpo, é vítima de alguma disfunção do foro psiquiátrico. Este diagnóstico pode ser feito por leigos, dada a evidência de que se prejudicou irremediavelmente ao ter perdido a capacidade de prever as consequências dos seus actos. Não é crível que volte a ser juiz, portanto, e mesmo como eventual advogado não oferece confiança e tem a credibilidade destruída. Precisa de se ir tratar e depois, caso recupere toda ou parte suficiente da sanidade mental, descobrir um novo modo de vida.

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Mas se, no plano clínico, estamos perante um indivíduo que merece compaixão e protecção, no plano político a sua exibição patológica em público permite chamar a atenção para um dos tabus que dão forma ao quotidiano da República: a problemática da saúde mental dos magistrados. Não se fala disso na “imprensa de referência”, ocupada como está em garantir que certos magistrados continuem a produzir certo tipo de manchetes e certo tipo de alarme persecutório.

Talvez só lá muito de vez em quando apareça alguma coisa nas revistas e colóquios das ciências jurídicas (embora não apostasse nisso os 10 euros que tenho no bolso). Ora, trata-se de uma inevitabilidade estatística, alguma percentagem dos procuradores e dos juízes exerce com doença mental não detectada pelo próprio, sua família e/ou entidades responsáveis por essa aferição no sistema de Justiça.

Outro aspecto relevantemente político no episódio deste juiz está no discurso de extrema-direita que usou. Não se trata de um acaso, porque não é um acaso estar na actual extrema-direita populista uma reacção de negacionismo da racionalidade científica, democrática e liberal. Esse fenómeno tem longínquas causas, desvairados factores influenciadores e inscreveu-se na história da civilização de uma forma espantosa com a vitória de Trump e a violência irracionalizante que espalhou e acirrou numa escala considerada impossível antes de a termos visto acontecer. Figuras como Trump, e como Ventura que lhe imita o feitiço, atraem quem esteja cognitivamente depauperado; seja por carência de literacias e formação intelectual, seja por estados doentios em desenvolvimento ou em actividade, seja por tudo isto ao mesmo tempo. Para dizer que alguém é “maçom”, e que é por isso que chegou a director da PSP para ser um “pau mandado do Governo”, não é preciso ter grandes estudos nem ter ao dispor uma grande inteligência. Será precisamente ao contrário. Onde está “maçom” ponha-se “corrupto” ou “socialista” e depois conte-se quantos no espaço público, muitos desses com papéis de representação política e social, repetem o bordão.

Não, este juiz não é perigoso agora que está exposto. Perigoso é estoutro, chamado Manuel Soares. Do muito que revela nesta entrevista – “Há pessoas que entraram pobres na política, saíram ricas e riem-se de nós” – o título escolhido pela TSF e JN c’est tout un programme do justicialismo populista que invade a cachimónia de figuras gradas no Estado e na sociedade. Infelizmente, dado não existir imprensa em Portugal, nenhum dos dois jornalistas presentes teve tempo para lhe pedir os nomes desses ex-pobretanas que andam agora por aí a rir e a gargalhar à nossa custa. Era giro saber de quem fala este juiz tão decente e honrado que até lidera o órgão que representa sindicalmente os juízes portugueses, né? Azar do caralho, perguntassem.

O melhor da entrevista, para mim, está neste naco:

Revê-se mais na justiça de Carlos Alexandre ou na de Ivo Rosa?

Revejo-me nas duas. Revejo-me na justiça que absolve quando não se provou que uma pessoa cometeu o crime ou que nega uma escuta telefónica quando não há indícios suficientes, como me revejo numa outra em que, se há uma investigação importante e se a Polícia ou o Ministério Público trazem indícios suficientes para pedir uma busca, uma prisão preventiva, o tribunal deve deferir.

Pois bem, bute lá traduzir:

«Eu, Manuel Soares, em nome de 2 300 associados que representam 95% dos juízes, penso que o Carlos Alexandre condena mesmo quando não se provou que uma pessoa cometeu o crime e que despacha escutas telefónicas mesmo sem indícios suficientes, e mais penso que o Ivo Rosa não acolhe os pedidos de busca e de prisão preventiva do Ministério Público, nem mesmo quando existem indícios suficientes.»

Aqui entre nós, Manel, aconselho-te a pensares um bocadinho melhor no assunto caso te voltem a fazer a mesma pergunta. Cuidado com esses excessos de transparência.

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Vindo de quem tem autoridade e saber na matéria é outra loiça:

Os nós do populismo judiciário


Fonte aqui

11 pensamentos sobre “O juiz perigoso

    • Mas se, no plano clínico, estamos perante um indivíduo que merece compaixão e protecção, no plano político a sua exibição patológica em público permite chamar a atenção para um dos tabus que dão forma ao quotidiano da República: a problemática da saúde mental dos magistrados. Não se fala disso na “imprensa de referência”, ocupada como está em garantir que certos magistrados continuem a produzir certo tipo de manchetes e certo tipo de alarme persecutório.

      e, ainda:

      Abril 4, 2021 estatuadesal juizes, Justiça, Saúde Mental, ena!

      Adenda. Noto, com agrado, que o ó d’A Estátua passou a tagar os posts do Valupi com o apodo de que as prosas trôpegas do tipo se tratam de um caso de… saúde mental. Muito bem (como sabes de há muito que eu o ando a dizer…), mas parabéns! Entretanto, depois de ler o seu enésimo post sobre as patifarias do juiz Carlos Alexandre, pois, o momento serve-me na perfeição para dizer o seguinte: é sabido, está escrito, sugestionado garbosamente pelo próprio e melancolicamente repetido pelos alucinados aduladores que o seguem no Aspirina B, que o auto-designado super-homem que, em Portugal Continental e nas ilhas adjacentes, no Império e nos arredores, mais sabe sobre os escatológicos meandros políticos da Operação Marquês e sobre a concomitante perseguição orquestrada pelo CM, pela Sábado e pela CMTV (e por todos os jornais à excepção do antigo DN do PML e da Fernandonha, na verdade) de que são vítimas tod@s os destacados associados desse filantrópico e honrado Partido Socialista local, pelo menos desde o nauseabundo processo e do julgamento do caso Casa Casa Pia passando por um injustiçadamente mártir nosso contemporâneo de nome Armando Vara, super-homem dizia, mais ou menos conservava dentro de si, secretamente, fervorosas esperanças de que a muita m. que vem escreveninhando há cinco, sete, nove dez anos sobre a virgindade de José Sócrates no seu blogue almejasse um dia aos altos favores da academia portuguesa através de uma ou duas ou três teses de Mestrado e de Doutoramento superiormente orientadas e que ficariam para a História Maior dos lusitanos! Pois o que é que, humilhantemente diga-se, se passou entretanto, adivinham? Num livrinho que acaba de saír, e que se pode comprar num dos supermercados Pingo Doce perto de si, a personagem Valupiana é misericordiosamente mencionada como fazendo parte da blogosfera indígena quando surge às cavalitas, salvo seja!, do nosso conhecido Eremita que, através do seu Ouriquense, troçava em tempos que já lá vão com o fadário que perseguia as “viúvas” e “órfãos de Sócrates” depois da sua morte no último átomo sobrevivente e que se tornou no almanaque do Socratismo. De morrer a rir, até o Miguel Abrantes é tratado decentemente, as citações ficam para depois…

      https://pbs.twimg.com/media/EvuFv2DXYAYKHEt?format=jpg&name=900×900 , vão a correr comprar é o conselho deste amigo que se assina e tanto vos estima,

      🙂

      • 1 de 2 ou 3, quando der.

        […]

        Vasco M. Barreto, apesar de ser um homem de esquerda, não usa, como já tivemos oportinidade de ver, uma pena macia para retratar o seu flanco. Ao lado de Francisco Seixas da Costa, também o blogue Aspirina B, descrito como «o último bastião socrático de planeta», e onde marcaram presença alguns nomes bastante enigmáticos – Valupi, Vega 9000, etc. -, foi motivo de vários textos provocadores, nomeadamente relacionados com a sempre interessante categoria de «órfãos de Sócrates» ou, noutra designação, «viúvas de Sócrates».

        🙂 , p. 71.

      • […]

        Em boa verdade, não foi necessária muita imaginação ou talento para se troçar de um blogue onde se escrevia, três anos depois da aterragem da troika no aeroporto da Portela e pouco tempo antes da famosa detenção do ex-primeiro ministro nesse mesmo local, que o legado de José Sócrates precisa de um Platão que o teorize e de um Aristóteles que o multiplique.

        🙂 eheheh!, p. 73 afinal era esta.

        2/3

      • 3/3

        […]

        Tentar explicar este historiador, cronista, ensaísta, biógrafo, argumentista, ex-deputado e ex-secretário de Estado da Cultura seria, utilizando uma expressão que lhe é cara, um exercício inútil. Toda a gente que lê conhece VPV, quase toda a gente que escreve já lhe dedicou uns parágrafos. As suas reflexões sobre a miséria sem remédio do país, a evocação permanente do século XIX e as traulitadas estilosas em Cavaco Silva ou em Amtónio Guterres são amplamente lidas, partilhadas, idolatradas ou censuradas, msmo quando foram publicadas há décadas, nas páginas d’O Independente, da revista Kapa ou do Diário de Notícias. A atitude polémica também marcou, naturalmente, presença no blogue: um mês depois da estreia já tinha um processo em tribunal por difamação, resultado de um post sobre Clara Ferreira Alves, a quem chamou, entre várias considerações uma «santanete» (que julgo poder traduzir como «groupie de Santana Lopes», deixando a tradução de groupie para os especialistas em cultura pop). A prosa de VP, uma verdadeira entrada a pés juntos às canelas da jornalista, não mereceu cartão vermelho por parte do árbitro, tendo o caso terminado numa absolvição. O post, esse, contou com a participação activa de dezenas (ou centenas) de leitores, que lá deixaram registados nada mais nada menos do que 245 comentários.

        Este enfoque nas caixas de comentários do Espectro não é, espero eu, uma obsessão. As caixas de comentários, do Espectro e de outros blogues menos concorridos, são uma das componentes da blogosdera que merecem análise. Frequentadas, em regra, por anónimos, permitem, no entanto, o reconhecimento e a familiriarização com um grande leque de personangens.* Alguns deles, como é o caso do Piscoiso, do anti-comuna, da Zazie ou do Euroliberal, vão montando, ruidosamente, o acampamento, nem sempre tendo o cuidado de deixar o terreno limpo quando pegam nas tendas e se deslocam, qual comunidade nómada, para outro lugar qualquer.

        🙂 , pp. 76-77.

        Asterisco. No caso do vosso humilde criado que assim se assina e que tanto vos estima, como resumiria o menino de ouro para a eternidade, é mesmo mas é mesmo-mesmo assim: “É assim, [eu não vos dizia?]. Ele é meu amigo e é um homem de posses. E eu sou um pobre provinciano que andou na política durante uns anos”. Os amiguinhos por aqui são o ó d’A Estátua, em particular as donzelas e, no geral mas também no particular, todos vosotros, menos o fascista é claro! Acrescentarei, apenas, que quem quiser conhecer os secret files da blogosfera socrática pergunte pela Zazie.

  1. Concordo que este juiz é um caso de psiquiatria.

    Mas daí a pretender que o país não está roído pela corrupção e que essa está presente também na política e nas sociedades secretas é querer fazer das pessoas parvas.

    Até parecem os comunistas a quererem impingir às pessoas a galga que o Lenine derrubou o czar e não o governo de esquerda democrática do Kerensky..

  2. Concordo que alguns Juízes são casos de psiquiatria mas outros são ura malvadez e frustração. Carlos Alexandre é para além de muito mal formado, um caso sério de vingança por pura frustração. Ivo Rosa é uma pessoa ponderada e refletida.

    • Nota. Nem mais, senhora Julieta, aguardemos mais uns dias pela longa e ponderada reflexão a que o juiz Ivo Rosa obrigou os portugueses em defesa dos direitos e das… muralhas da cidade. Se me lembro bem, o último score do senhor no Tribunal da Relação de Lisboa e nos tribunais superiores vai em 16 decisões chumbadas (ou seja: de nada lhe servem, a ele e a si que se chegou à frente, as seis mil páginas de que se fala sobre as minas e armadilhas no processo da Operação Marquês, paridas em quase um ano de exclusividade!, porque tecnicamente e, em termos exclusivamente de ciência jurídica, a fama que o acompanha é a de ele ser um nabo). Aguardemos pois, e sem stress.

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