A ciência em vez da política

(António Guerreiro, in Público, 12/02/2021)

António Guerreiro
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Como temos visto, os modelos matemáticos para prever a progressão futura da pandemia são belos instrumentos que falham tantas vezes com estrépito porque ainda existe o incalculável e não é possível evitar a sua emergência. É o incalculável que faz com que a estatística não se tenha tornado completamente a arte de governar. A favor do cálculo e do calculável, há hoje números para tudo e são eles que guiam os actos administrativos da governação. Neste tempo de ruína da política, o que fica fora da racionalidade numérica é da ordem do ingovernável. Freud colocou o governar entre as três “profissões” impossíveis. As outras duas eram o educar e o psicanalisar. Todas elas são artes cibernéticas, no sentido em que podem ser definidas através da metáfora da pilotagem de um navio. A “ciência” a que Norbert Wiener chamou “cibernética”, refere-se ao pilotar, ao dirigir.

Boas razões têm levado o poder político a submeter-se ao parecer de comités científicos nas decisões sobre matérias que exigem o saber dos “especialistas”. Mas isso também tem alguns efeitos nefastos, um dos quais é o modo como se tem acentuado bastante uma visão distorcida da ciência, quando nela se investem crenças colectivas na sua capacidades salvífica. Uma leitura necessária nas circunstâncias actuais são duas conferências que Max Weber pronunciou em Munique, em 1917 e 1919: “A Ciência como Vocação” e “A Política como Vocação” (estão ambas publicadas pela Relógio D’Água, com o título: A Ciência e a Política como Ofício e Vocação). Na primeira conferência, Weber defendeu que “as ideias de liberdade e felicidade são estranhas à ciência como vocação” (ou profissão, já que a palavra alemã Beruf tem os dois significados). E rejeitou a tecnocracia como uma opção desejável, argumentando que ela, podendo embora ter a eficácia como característica, não tem a capacidade de exprimir aquilo que se espera do agir político: que toque o fundo não racionalizável da vida. Como noutros domínios, estamos hoje confrontados, no espaço público, com dois extremos: por um lado, temos a emergência das posições obscurantistas, negacionistas e anti-científicas; no pólo oposto, temos a ciência a colonizar a política e a contribuir para que esta seja vista como um problema. Um governo da ciência, dominado por “especialistas” que de certo modo passam a substituir os cidadãos, é já visto como uma alternativa desejável. Entre a ciência e a política, há uma lua-de-mel a festejar publicamente. É, aliás, como “cientista” (de uma incerta “ciência” que se chama Economia) que Mario Draghi acaba de ser chamado para governar a Itália. É o resultado do “casino” político italiano.

Transferida para o domínio da governação, a ciência é uma forma de despotismo que obrigaria a renunciar a direitos civis. Grande parte do nosso comportamento quotidiano não é guiada pelo saber e as prescrições da comunidade científica. Teríamos uma vida infeliz se assim fosse, por mais que respeitemos, admiremos e vejamos a ciência como o principal factor de cultura e civilização. O prolongamento da situação actual de pandemia, tal como ela é gerida, comporta enormes riscos políticos, como já todos percebemos. Um deles é que a democracia se transforme em “democratura”, para usar um neologismo que começa a impor-se e a seguir o seu curso.

Olhando aquém e além da situação excepcional em que vivemos, isto é, analisando uma disposição que não nasceu com a pandemia, é notável que os cidadãos se mostram favoráveis à substituição da política pela ciência. E isso acontece por causa da política fraca em que caímos (e, por todo o lado, os recentes arautos e protagonistas de uma política forte, quando falam de política estão antes a falar de polícia) e da falta de um poder e de um debate políticos que tratem os cidadãos como adultos. O discurso dirigido aos cidadãos durante a epidemia inclinou-se para uma moralidade e infantilidade insuportáveis porque essa é a regra já antes instaurada. Nada exemplifica melhor esse discurso do que os discursos das instituições estatais que zelam pela nossa segurança e bem-estar, como é o caso da Protecção Civil: “Hoje vai chover, proteja-se”, “Não se exponha ao sol porque vão estar mais de 30 graus”, “Agasalhe-se e tome as devidas precauções porque a temperatura vai descer muito”. Amplificadas pelos media, as prescrições, proibições e conselhos que pretendem instalar-nos num mundo seguro criam um ambiente de parque infantil.


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