Ainda confuso com o acordo entre PSD e Chega? Rui Rio também

(David Dinis, in Expresso Diário, 19/11/2020)

Ao fim de duas semanas a ironizar no Twitter, Rui Rio foi à TVI para explicar o que aconteceu nos Açores, o que aconteceu com o Chega, o que aconteceu com o PSD ou mesmo com a direita. O exercício foi útil, embora ligeiramente confuso. Primeiro porque percebemos que Rui Rio responsabiliza o representante de Marcelo nos Açores pelo acordo. Segundo porque percebemos, em alternativa, que Rui Rio acha que o acordo foi bem feito – pelo que o subscreve na íntegra e sem pestanejar. Confuso? Se preferir a primeira versão, aconselho que entre no link acima. Se quiser perceber a segunda, é seguir por este texto, onde em apenas quatro frases conseguirá perceber melhor como Rui Rio o justifica.

“Estou de acordo, estou a dar a cara”
Depois de dizer que foi feita “uma barulheira” para “abafar a verdade”, depois de ter dito que “não há nenhum acordo nacional, tudo se passou na região autónoma”, e também que estava a “servir de advogado do PSD dos Açores”, Rui Rio acedeu que o novo presidente do Governo Regional, que por acaso foi vice-presidente da sua direção no PSD, teve a “cortesia” de o manter “informado” das negociações com André Ventura. E que o SMS de Ventura a negociar o comunicado final “foi mandado para mim” (para ele, Rui Rio). E , mais, que ele próprio concorda com todos e cada um dos pontos negociados – pelo que subscrevia o acordo. Ficou, assim, esclarecida a “barulheira”. Ou melhor, ainda não, porque é preciso entender com que pontos do acordo Rui Rio concorda. Siga para a frase seguinte.

“Há pessoas que podem estar com rendimento mínimo e que não trabalham porque não querem”
O líder do PSD explica assim porque aceita e subscreve a proposta do Chega para “reduzir a subsídio-dependência” nos Açores, sendo necessária por isso uma “maior fiscalização” do rendimento mínimo. E, disse ele, ficou convencido depois de, numa visita que fez a Rabo de Peixe, o concelho mais pobre do arquipélago, ouvir “um pescador” dizer que “as pessoas não querem vir ao mar”. Nos Açores, anote, 30% dos que têm direito a este apoio social têm menos de 18 anos. Muitos deles são mulheres. E ir ao mar, lembre-se, nem sempre tem “ir e voltar”.
A juntar a isto, Rui Rio diz concordar também com a exigência de Ventura de reduzir o número de deputados e de “combater a corrupção”. Entendida a “barulheira”? Ainda não, é preciso perceber que tipo de partido entende Rui Rio que é o Chega. Siga para a frase seguinte.

Racista? Xenófobo? “O Chega é uma federação de descontentes”
“Existe pela negativa”, disse apenas Rui Rio, não entrando na discussão sobre as propostas de prisão perpétua, de castração química, as de confinar os ciganos, ou as (intermitentes) de proibir casamento entre homossexuais. “Não é bem um partido cimentado, o tempo vai obrigar o Chega a ser um partido pela positiva”. A convicção de Rui Rio de ontem é, porém, contrastante com o que o próprio Rui Rio assumia em junho, quando ainda exigia ao Chega que se moderasse: “Se o Chega continuar numa linha de demagogia, de populismo, da forma como tem ido, há aqui um problema, porque aí não é possível um entendimento com o PSD. Face ao que o Chega tem sido, descarto conversar”. Afinal, conversa. Entendida a “barulheira?” Talvez, mas ainda é preciso perceber o que mudou – se é que mudou – em Rui Rio, ou no Chega.

“Senão só o PS é que pode governar”
Durante a entrevista, os jornalistas da TVI confrontaram Rui Rio com as suas próprias palavras, ditas há dois anos num debate com Santana Lopes, onde afirmava que, se o PS vencesse eleições sem maioria, devia ser o PS a governar – “com acordos parlamentares”. Mas Rui Rio, que não se lembrava de ter dito isso, mudou de ideias. Seja para aplicar nos Açores (“ao fim de 24 anos de PS no poder? Não me peça tanto!”), seja para aplicar na Assembleia da República, depois das próximas legislativas (“o que defendo é que quem conseguir uma maioria parlamentar deve governar”). A razão, assumida pelo próprio: “Senão, só o PS é que pode governar”.

Entendida a “barulheira?”. Agora sim. Só falta uma pequena correção: se a direita, sem o Chega, conseguisse uma maioria parlamentar, também poderia governar – mas aí de cabeça levantada e sem espaço para “barulheiras”. Mas para isso, claro, era preciso conseguir convencer os eleitores de que tinha projeto e equipa que o merecessem. Ou então levar a sério aquela outra frase de Rio Rio, dita também ontem na TVI, mas já sobre o próximo Orçamento: “Não quero chegar a primeiro-ministro de qualquer maneira”. Ainda bem que se nota.


7 pensamentos sobre “Ainda confuso com o acordo entre PSD e Chega? Rui Rio também

  1. Grande treta.

    Toda a gente sabe que o Chega não passa de um spinoff do PSD o Ventura até veio de lá e tudo.

    Se o Chega é fascista o PSD é apenas um poucochinho menos fascista.

    Embora esta mania da esquerda chamar fascista à direita conservadora seja um bocado contraproducente porque vai normalizar um verdadeiro partido fascista que possa aparecer.

    Extrema direita ? Sim. Até o PSD e o CDS são. Mas fascista ? Alguém aqui já leu o programa do partido fascista ou nacional socialista ou estudou as suas práticas ?

    Em algumas coisas coincidem com a direita conservadora, em outras, como o papel do estado, da política e até do estado social, são exatamente o oposto.

    • Tendo em conta que o NSDAP inventou a privatização, são mais semelhantes do que pensa. Mas a ideologia ficou para trás eventualmente, que a luta eterna só pode ser falhada pelos outros e é melhor não confiar em ninguém que não seja o líder.

  2. Quanto à alegada fascistice do Chega os outros partidos baseiam-na em três coisas.

    – Que o Chega apresentou a proposta de castração química ou física COM CONSENTIMENTO DO PRÓPRIO E A TROCO DE REDUÇÃO DE PENA.

    Pormenor. Vários tipos de castração como pena existem em vários países democráticos.

    Pergunta.

    O Reino Unido, Canadá, Estados Unidos, Dinamarca etc onde existe a pena de castração, são países fascistas ?

    – Outra “prova” do fascismo do Chega é a pena de morte.
    Está é fácil. É mentira, o Chega nunca propôs a pena de morte e o Ventura é contra essa pena.
    Mesmo que fosse a favor isso não faria dele necessariamente fascista porque a pena de morte é aplicada em países democráticos como os EUA e o Japão.

    – A prisão perpétua.
    O tribunal europeu europeu dos direitos humanos decidiu que é uma pena válida que não viola os direitos humanos.
    A esmagadora maioria dos países da UE tem prisão perpétua.
    Países como o Reino Unido, Holanda, Austria, Bélgica, Suiça, França etc praticam a prisão perpétua. São todos fascistas ? A Europa é fascista ?

    Puxa para o potliticamente correcto português afinal a Alemanha ganhou a guerra…

    – Que o chega quer que toda a gente seja obrigada a cumprir a lei. Incluindo os ciganos. Esta nem comento porque o racismo da própria crítica é evidente. TODA a gente deve ser obrigada a cumprir a lei. Por exemplo tirar os filhos da escola ou organizar casamentos de adolescentes deve ser crime para TODOS sem excepções com motivações raciais.

    Com tudo isto não estou a defender o chega, que para mim é um partido de criminosos sociais.

    Mas não se pode basear o ataque ao chega num chorrilho de aldrabices.

    Se não se sentem mal em serem aldrabões pensem ao menos em termos de resultados práticos.

    Os dados que referi acerca do países com pena de morte, etc, são do acesso de todos.

    Até o tuga médio, embrutecido pelo futebol, com o passar dos anos, no intervalo de algum jogo da merda da bola vai acabar por fazer uma consulta rápida na net e descobrir que vocês estão a aldrabar acerca do chega. Alguns já o fazem.

    Isso vai ter como resultado a descredibilizaçao dos críticos do chega que serão vistos como aldraboes.

    E depois da reputaçao criada o povo vai pensar que todas as críticas ao chega são fake, mesmo as críticas fundamentadas, dando enorme força ao Chega.

    E isto já está a acontecer.

  3. Nota. Preocupem-se com o spin dos moços e raparigas assalaridos do Largo do Rato que o PS do António Costa está a fazer-te a cama, ó d’A Estátua. E depois vem cá chorar no meu ombro, que eu já t’atendo.

    17h34

    PS chumba proposta do BE sobre autonomia dos hospitais do SNS para contratar

    Mariana Lima Cunha

    O PS acaba de chumbar a proposta do Bloco de Esquerda para dar autonomia às instituições do SNS no que toca à contratação de pessoal. Era uma das linhas vermelhas do partido [sublinhado!], o que deixa o BE cada vez mais longe de viabilizar este Orçamento. Na votação, PSD, CDS, PAN e Chega abstiveram-se; BE, PCP, IL e PEV votaram a favor.

    Adios.

    • Adenda.

      Então os mentirosos do António Costa d’um cabrão, a Temido, o Lacerda da barragem e a Graça Freitas andaram a vender a tanga de que os novos casos de Covid-19 aconteciam em ambiente familiar?!

      Afinal soube-se na quinta-feira, na reunião do Infarmed, que sobre mais de 80% (oitenta!) das novas infecções a DGS não é capaz de determinar a origem porque, entre outras coisas, o pessoal destacado para o recenseamento é em número reduzido.

      Ou seja, que o mesmo é dizer que a tanga era lançada para os pacóvios com base num número residual do universo das novas infecções. Um desenho para vos mais desmiolados: de 100 novos infectados não se sabe a causa de 80/85; sobram 15/20 portanto e, no final, metade destes é que se diz que foram infectados nas tais orgias familiares de cozidos à portuguesa, pão, enchidos e queijos lá da terra e, ainda, umas litradas de vinho tinto?…

      Vão-se f., pá, em resumo o cabrão do António Costa é o bobo de serviço num governo de mentirosos. PS, PS, PS!

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