Vicente e o Comércio do Funchal

(Pacheco Pereira, in Público, 12/09/2020)

Pacheco Pereira

A maioria das pessoas referiu-se no balanço da obra de Vicente Jorge Silva (V.J.S.) ao seu trabalho no Expresso e à criação do PÚBLICO. É uma avaliação justa, mas como a memória é rápida no esquecimento, vou falar de um outro contributo único do V.J.S., a sua direcção do Comércio do Funchal, o jornal cor-de-rosa, em plena ditadura. Era um jornal único no seu tempo, numa altura em que tudo conspirava para o não ser, dos dois lados da política, da censura da ditadura e do sectarismo esquerdista.

Neste ofício de andar aos papéis no Arquivo Ephemera tem-se uma noção muito exacta da influência de jornais e publicações, antes do 25 de Abril. Ora, não há espólio de antigo esquerdista, ou pura e simplesmente de oposicionista, que não venha com uma pilha de jornais cor-de-rosa. Comércio do Funchal era leitura obrigatória para a geração que se formou nos anos 1960, à volta de Maio 1968. Essa geração associava a recusa da guerra colonial, a luta contra a intervenção americana no Vietname, a crítica do socialismo soviético e da política externa da URSS, e a participação no movimento estudantil e, mais tarde, no esquerdismo organizacional.

A formação geracional nestes anos é, no entanto, mais complexa do que parece hoje, em que há tendência para ver tudo a preto e branco. Ela tem uma evolução que não é peculiar da experiência portuguesa, mas que comparativamente ganha uma dimensão especial de risco que a ditadura dava, em Portugal, Espanha e Grécia.

No seu início, à volta dos acontecimentos de 1968, mas precedendo-os, houve um pequeno período de tempo de genuína liberdade política e de gosto, com a ruptura com a cultura neo-realista hegemónica na oposição, e a mudança cultural associada à música anglo-saxónica, aos Beatles em particular, à renovação de gostos e leituras, ao surrealismo, à banda desenhada, literatura e cinema americano, grafismo hippie, e uma nova atitude face ao corpo e ao sexo, e à química das drogas.

Comércio do Funchal, como o & etc., a Memória do Elefante e, em menor grau, Tempo e o Modo, capturou esse breve momento antes do processo de ortodoxia dos anos 1970, e nunca o abandonou contra os ventos e as marés da rigidez ideológica. E isso foi obra em primeiro lugar do V.J.S., que conseguiu manter o jornal fora do processo sectário da extrema-esquerda, com muita dificuldade, como algumas polémicas do jornal revelam. Depois do 25 de Abril, o Comércio do Funchal acabou por soçobrar à enorme pressão sectária, transformando-se no Jornal de Luta e Unidade, com a enorme influência da UDP na Madeira, mas já tinha tido o seu papel único num período em que estava solitário.

Se olharmos para a lista de colaboradores por volta de 1973-4 — Alberto Melo, J. A. Silva Marques, Joaquim A. Leal, Jorge Lima Barreto, José Freire Antunes, Júlio Henriques, L. H. Afonso Manta (pseudónimo de Nuno Rebocho), Manuel Quirós, Mário Brochado Coelho, Ricardo França Jardim, entre outros —, encontramos gente do MRPP, do PCP(ML), anarquistas, situacionistas, membros de alguns pequenos grupos maoistas e trotsquistas, ou pessoas que vieram a estar no MES depois do 25 de Abril. Mas, mais do que as pessoas, encontramos o reflexo (como no Tempo e o Modo) das polémicas da época, entre maoistas e “revisionistas”, mas acima de tudo entre maoistas e maoistas, algumas lavrando no exílio e encontrando a sua única manifestação nacional no Comércio do Funchal.

É também no jornal cor-de-rosa que encontramos sinais de uma evolução do esquerdismo em vésperas do 25 de Abril para um maior pluralismo para fora da hegemonia maoista, com a aparição de novas tendências anarquistas e situacionistas, e um afastamento do sectarismo extremo. Um colaborador do Comércio do Funchal, Silva Marques, cria em Paris o Centro de Iniciativa Política que tem o arrojo de convidar Mário Soares para um debate, provocando as fúrias respectivas. E recordo Silva Marques porque ele é um bom exemplo de um cansaço do sectarismo que começa a existir nesses anos e que o 25 de Abril vem travar, gerando um efeito contrário de reforço da ortodoxia e da grupusculização, que ajudou a matar o Comércio do Funchal.

O V.J.S. fez uma coisa rara entre nós — fez obra. Não tanto como jornalista, mas como criador no terreno da comunicação social, sendo impossível não o referir juntamente com Emídio Rangel e Marcelo Rebelo de Sousa como os três nomes que mudaram a comunicação social em Portugal nos últimos 50 anos.

Ao lado deles estiveram grandes jornalistas, mas eles inventaram os lugares onde depois os “miglior fabbro” trabalharam. Como não me atrevo a pôr o epíteto de Dante para Arnaut Daniel, e de Eliot para Pound, no plural, vai mesmo assim, sem concordância.

P.S.: Uma boa homenagem ao Vicente seria fazer um número especial do Comércio do Funchal que podia sair como suplemento do PÚBLICO.

Historiador


14 pensamentos sobre “Vicente e o Comércio do Funchal

  1. Pelos colaboradores que aponta,o C.do F.faz-me lembrar uma conhecida revista onde, quando jovem,tentei publicar algo meu, e o amável director me esclareceu :
    -Publicamos tudo, menos neo-realismo…

  2. Sem dúvida que o Comércio do Funchal teve a sua importância e relevo, mas claro, foi sol de pouca dura, na medida em que o jornalismo português de várias vertentes e opiniões com alguns jornais (Capital, Diário, Diário Popular, Dia, Diário de Lisboa, etc) depois da revolução dos cravos, também durou pouco. O formato tablóide em vigor actualmente é demonstrativo disso mesmo, e o facto de o público supostamente ter sido sempre um jornal mais aberto a todo o espectro da sociedade é na minha opinião uma treta, já que, por se publicar artigos de todos os partidos do parlamento, não considero que isso seja a chamada imprensa livre que já não existe. O Rangel, o Marcelo e o Vicente tiveram a particularidade de criar o jornalismo tipicamente britânico ou melhor made in usa, e as agendas mediáticas ocidentais que escolhem a dedo as respectivas propagandas. A ironia é que dizem todos mal do comunismo e do totalitarismo de Stalin, mas na prática os media ocidentais vão na mesma direcção, só que de forma mais moderna e com outros recursos. Afinal de contas a imprensa livre deixa de existir quando o capital e a economia são os donos da sociedade, logo estamos conversados.
    Basta olhar para a diversidade de jornalistas que existem no público ou nos poucos meios informativos, são quase sempre os mesmos, melhor, os mass media de um modo geral também funcionam de forma corporativista seja nas escolhas por exemplo dos livros a criticar, filmes e outras formas de artes, entre outras coisas. Somos um país rico em muito coisa, mas cada vez mais pobre com a “normalização” imposta pela tecnologia da inteligência artificial que quer todos a fazer a mesma coisa, a bezerrar. :P:D
    Se o público que supostamente não dá lucro, porque é que ainda existe ? Provavelmente para preencher a lacuna da agenda política nacional, de que afinal temos um jornal que realmente é independente. Já em relação ao Expresso onde o Vicente criou a revista, sempre, desde o inicio foi um jornal da agenda pessoal do Balsemão com a cunha dos amigos gringos para linchar a torto e a direito os commies (comunistas) que foram e serão sempre os culpados da falta de evolução da sociedade Portuguesa ou seja os bodes expiatórios são tudo o que está à esquerda e os ladrões e corruptos, são os que não precisam (oligarquia e cia), logo para se manter esta democracia fiel à grega, já que nesses remotos tempos quando se criou a famosa democracia, o modelo era o mesmo, uns poucos mandam, a restante manada trabalha. (lmao) Tantos anos depois o ser humano, sempre bem manipulado, roubado e enganado, tanto pela esquerda como por outro qualquer quadrante político, ainda não percebeu ou enxergou que vai sempre dar ao mesmo. Bem, pode ser que a futura geração por culpa do mais ricos e mais poluidores, assassinos e criadores de guerras constantes para continuarem a dominar, acordem, e além de uma imprensa nova, criem também uma nova forma de democracia, não a grega, mas uma realmente nova e justa para tudo e todos, para assim se corrigir o curso errado da história.

      • Não sou do este, nem muito menos de esquerda, já que acredito numa sociedade democraticamente livre onde todos os quadrantes ou formas de pensar se possam juntar e dai resultar algo de positivo e produtivo para a evolução da mesma, nesse sentido aquilo que quero transmitir é simples, essa coexistência pacífica de pluralismo entre os diversos partidos nacionais nunca conseguiu na prática criar um Portugal independente com um rumo bem definido e soluções adequadas a todos os seus desafios. Provavelmente porque a tal mentalidade dominante conservadora em parte do antigo regime se mantém e assim enriqueceu algumas castas em detrimento de desenvolver o país, os dinheiros fossem do FMI, fossem da CEE, podiam ter tido mais relevo, mas como todos sabemos, não foram todos bem investidos, em grande parte por falta de fiscalização adequada e transparente de entidades públicas. Só espero apesar de, claro com dúvidas, que esta nova tranche de dinheiro não siga pelo mesmo caminho, já que sou pai e preocupo-me com o futuro do meu filho no sentido de ele próprio poder evoluir naturalmente em Portugal e não ter que eventualmente emigrar para poder ter uma vida normal.

  3. Off.

    […]

    Se uma pessoa comprou um carro e, passados uns meses, descobre que ele não funciona como deve ser e que foi enganado, percebe-se bem que não volte a comprar outro carro [qualquer que ele seja] ao mesmo vendedor.
    – Pedro Silva Pereira, Edição da Noite, SIC N, 11.9.2020.

    Nota. Nem mais, meninos/as, eis uma metáfora magnífica para que os eleitores portugueses enganados pelo cabrão do José Sócrates mentiroso não votem novamente no PS do António Costa. Não via o Silva Pereira há tempos: está velho, engordou bastante acentuando-se assim o facies tortuoso, o olhar amedrontado e pouco confiável e, pior, ostenta agora um inestético sinal na sua bochecha esquerda como se fosse uma Carmen espanhola decadente, uma Lolita envelhecida?, durante as operetas populares representadas nos theatros do bas-fond da viragem do século XIX ou nos actuais espectáculos de transformismo para maiores de 18 anos.

    Voltarei aqui, bom FDS

    • Adenda, dizia eu que. Que não via o Silva Pereira há tempos: está velho, engordou bastante e, fazendo o filme todo, até faz tremer um cristão… Pedro, o dito, é vice do PE por escolha do PSE nas negociações com o PPE. Jorge Coelho vai tratar da sua “outra vida”, a Efacec que está nas mãos do Estado está a desvalorizar-se, dizem, à espera de um negociante de favor eventualmente, Vítor Escária foi nomeado recentemente chefe de gabinete do PM, Arons de Carvalho foi o nome do PS que passatá a integrar o Conselho Independente da RTP (veja-se e compare-se: o PSD apresentou a Leonor Beleza que neste campo não tem dezenas de cadáveres), António Costa e Fernando Medina surgem como cabeças de cartaz da Comissão de Honra do Luís Filipe Vieira…

      Ora, caros, a naturalidade com que estas coisas são feitas obriga-nos a ver o filme todo: um roubo de igreja está a acontecer, neste momento.

      Asterisco. Vale muito a pena ler aqui: https://www.publico.pt/autor/joao-miguel-tavares .

      OPINIÃO

      Só faltava pôr Arons na RTP. Agora já não falta

      João Miguel Tavares

      12 de Setembro de 2020

        • Toma lá e despede-te da senhora se fazes o favor, ó-ó Paulinho.

          16.09.2020 às 6h31
          Os fiscais da Segurança Social estiveram no lar de Reguengos no dia 11 de março, antes do estado de emergência ser declarado e da covid-19 ser um problema para a instituição. Não houve qualquer “inquérito” da Segurança Social como disse António Costa. Apenas um relatório onde foram detetadas pequenas falhas e registado que o lar cumpria os requisitos legais em matéria de recursos humanos. Foi este o documento que Ana Mendes Godinho enviou para o Ministério Público. O tema regressa ao Parlamento esta quarta-feira, com as ministras do Trabalho e da Saúde a explicarem aos deputados o que correu mal naquele lar, cujo surto causou 18 mortes
          – Rosa Pedroso Lima, no Expresso online.

          https://expresso.pt/politica/2020-09-16-Reguengos.-Inquerito-da-Seguranca-Social-enviado-a-PGR-foi-feito-antes-da-pandemia

        • Adenda. E compra uma fatiota, Paulinho, para não fazeres má-figura na missa de corpo presente!

          […]

          16 DE SETEMBRO DE 2020 ÀS 13:01
          Valupi: aquele diálogo infra, se calhar, eleva o nível baixinho do teu blogue e esse post trapalhão embrulhado em nada de substancial. Eu conheço a personagem quase uma década antes de 2004 mas só me foi dado a perceber o for-de-série que estava ali (missionário/imortal) quando o António Costa calçou os sapatos do defunto e, finalmente, se viu trajado de PM.

          Aliás, desde os fogos de Pedrógão, com o PR a meter-lhe a mão por baixo em troca da cabeça da incapaz ministra Constança Urbano de Sousa senão o governo do PS acabava ali mesmo e o Costismo batia com as nalgas no cimento, isto tem sido sempre um alegre passeio até morrer (como também dizia o Platão, aliás).

          Lê.

          15.09.20

          O apoio a LFV por parte de António Costa não foi um deslize motivado pela paixão clubística. Creio que é consensual afirmar que a astúcia política é umas das qualidades de António Costa; permitiu a um simplório pouco culto, sem capacidade de expressão, sem conhecimentos técnicos, sem percurso profissional fora da política, chegar a primeiro ministro e com ambições para ir ainda mais longe. Seria muito estranho que um tipo que só entende de chicana politiqueira, e vive desde sempre no meio dela, fosse agora cometer um disparate destes.
          A razão pela qual Costa se envolve com LFV é porque não quer que LFV caia do pedestal. Sabendo a regra em vigor em Portugal – dirigente de grande clube desportivo tem imunidade judicial, saindo do clube cai-lhe tudo em cima no dia a seguir – Costa está mesmo muito interessado em que LFV continue na presidência do Benfica. O grande medo de Costa é que, quando se começar a desatar o nó que é o percurso empresarial de LFV, quando se pegarem nas cerejas que são os processos em que está envolvido, não apareça lá pelo meio o nome de Costa. Costa tudo fez para que os processos em que o Benfica e LFV estão envolvidos não tivessem andamento. Chegou a respondeu com piadas quando foi interrogado sobre um deles.
          Para mim é simples: caem juntos, por isso vão agarrados até ao fim.

          15.09.20

          … a tal astúcia política é manha, tudo se resume a isso: pensava eu que durante este tempo todo em que o PM se tornou conhecido dos eleitores portugueses, em que o tipo esteve pela primeira vez sob os holofotes como artista principal digamos, esta sua qualidade que o tornaria num messias para a Esquerda e num imortal para a Direita morreu mas ainda não foi enterrado, não de doença, mas por má figura. Vai para a vala comum, que Deus me perdoe.

          Nota. Isso de-de é conversa para tanguistas, sanguessugas do PS e meninos.

          • Já investigou o papel de Costa nos incêndios do Oregon? Parece que ainda conseguiu desaprender depois de Pedrogão.
            O meu problema não é que Costa seja manhoso, o que é óbvio, problemático, e vai acabar mal para o partido (com o qual, em abstracto, não me importava); é que as alternativas (viavelmente realistas) só não são mentirosos compulsivos porque ainda estão mais distante da realidade a sonhar com criadores de emprego.

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