Nas asas do pesadelo

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 03/07/2020)

Miguel Sousa Tavares

O que não faltam é opiniões firmes e assertivas sobre a TAP, o seu destino e o seu futuro. Eu, que em tempos já tive uma opinião firme — contra a privatização — hoje não consigo ter nenhuma, apenas um profundo sentimento de tristeza e frustração e, sim, a sensação nítida de estar a ser assaltado à mão armada, seja qual for a solução encontrada para já.

Para início de conversa e para se ter uma ideia do que está em jogo imediatamente, atente-se nos números: o Governo prepara-se para injectar na TAP mil e duzentos milhões de euros (ou, se preferirem, 1.200.000.000 euros), para salvar dez mil postos de trabalho. Ou seja, 120.000 euros (cento e vinte mil euros) por posto de trabalho! Não é muito, não é imenso, é pornográfico. Nunca, em Portugal, e creio que em qualquer outro lugar do mundo, um posto de trabalho criado ou mantido, teve este custo, equivalente a mais de 15 anos de ordenado mínimo nacional: eu não gostaria de estar na pele dos trabalhadores da TAP, da próxima vez que, com razão ou sem ela, fizerem greve…

Mas isto é só para começo de conversa. No primeiro trimestre deste ano — que apenas incluiu 15 dias de pandemia — os prejuízos de exploração da TAP chegaram quase aos 400 milhões. Se, de então para cá, os aviões estiveram todos em terra no 2º trimestre, estarão a voar talvez um terço no 3º trimestre, e ninguém prevê nada de bom no 4º, é fácil de concluir que os 1200 milhões não chegarão sequer para cobrir os prejuízos de exploração do ano de 2020. E ainda há uma dívida acumulada, e a vencer juros e amortizações, de 3,5 mil milhões, essencialmente com o leasing dos novos aviões que agora se pretende vender, mas cujo mercado de compra está saturado. Esqueçam, pois, o Banif, o BPN, o Novo Banco, as PPP e o que ainda está para vir (Montepio, Efacec, etc.): a TAP vai ultrapassar tudo em termos de catástrofe financeira para os contribuintes. E é a esta luz que, independentemente das ideologias e das soluções propostas, tudo deve ser, antes de mais, decidido. Ou, pelo menos, dito, olhos nos olhos, aos portugueses. Porque, se houve, no Governo, quem tivesse o supremo descaramento de afirmar que não iriam excluir as empresas sediadas em off-shores dos apoios financeiros do pacote comunitário para “não lhes causar constrangimentos” (decisão felizmente revertida graças ao inconformismo do Bloco de Esquerda), aqueles que pagam até 50% dos seus rendimentos do trabalho só em IRS, fora o resto, têm o direito acrescido de estarem constrangidos e perplexos com mais esta conta sem fim à vista, cuja factura fatalmente lhes cairá na caixa de correio, mais tarde ou mais cedo.

Esta é uma história repetida, vezes sem fim, sem vergonha e sem nenhuma lição aprendida para futuro. Naquilo que eu chamo o “mundo do lado de cá” — aquele em que vive a metade de portugueses que paga impostos a favor dos que não pagam; dos que não dependem nem esperam pelas benesses públicas para investirem, criarem postos de trabalho, tratarem de si e dos seus; dos que não contam as horas nem os dias de férias que trabalham ou os anos para a reforma — nesse mundo, quando se imagina que, uma vez saldadas as contas com o Estado e a comunidade, se pode enfim fazer contas à vida contando com as forças próprias, há sempre uma desagradável surpresa que vem do lado de lá e que tem o dom de arruinar tudo o que se construiu e sonhou por mérito próprio. O Estado comporta-se com o “mundo de cá” como um inimigo, um cobrador insaciável, o viciado em drogas a que a família tem de acorrer permanentemente, sempre na esperança repetida de que seja a última vez, mas sempre acabando por se sentir a deitar à rua dinheiro que tanto lhe custou a ganhar e que tão melhor aplicaria noutras coisas bem mais úteis.

ILUSTRAÇÃO HUGO PINTO

E depois, quando administra ou negoceia coisa pública em nome de nós todos, o Estado parece fazê-lo sempre com uma displicência, uma leviandade e uma irresponsabilidade final própria de quem se habituou a não ter de prestar satisfações a ninguém.

O caso da TAP é apenas mais um exemplo de como sucessivas levas de brilhantes gestores, especialistas, advogados e políticos conseguiram fazer da tal “empresa de bandeira”, orgulho de todos nós, um caso de verdadeira delinquência administrativa. Recordo brevemente e apenas para que alguém fique com as orelhas a arder e não pense que esquecemos: primeiro, os anos de “gestão dos tios”, com presidentes e gestores saídos do PS e PSD, abrindo rotas condenadas à ruína, com voos inaugurais atulhados de colunáveis para os publicitar nas revistas do “jet seis”; depois, uma tentativa de gestão profissional, mas já com manobras na sombra visando a privatização, com a desculpa pouco séria de que Bruxelas não permitia que o Estado procedesse a uma tímida recapitalização, que teria dado à empresa asas para voar tranquilamente; depois, uma escandalosa privatização, consumada sem pudor a dois dias de um governo cessante; a seguir, a farsa, para sossegar o lado esquerdo das boas consciências, da retoma parcial do controle público da empresa, pior emenda que soneto, aproveitada por David Neeleman para armadilhar todo o novelo, perante a pacóvia satisfação do incauto parceiro; enfim, e agora, as bravatas do ministro Pedro Nuno Santos, berrando na praça pública amea­ças e ultimatos contra os parceiros negociais, como se fosse dono da TAP e do dinheiro lá metido e a meter, e com tão sábia subtileza o fazendo que conseguiu que Bruxelas considerasse a TAP como a única companhia de aviação europeia a excluir do âmbito dos apoios covid, pois que o próprio ministro a declarou publicamente falida antes da epidemia. E sempre, sempre, em cada passo deste longo e meticuloso processo de autoliquidação da empresa, um prestimoso serviço de assessoria jurídica do lado do Estado e tão ao gosto dos nossos governantes: contratos imensos, palavrosos, mal pensados e mal redigidos, com cláusulas que, ou são secretas, ou são confidenciais, ou são dúbias e, na dúvida, são sempre interpretadas contra o interesse do Estado, em tribunais arbitrais internacionais onde, por estranho acaso, o Estado português jamais ganhou um contencioso.

Aqui chegados, a pergunta inevitável é: e agora? Agora, com grande tristeza minha, que fui devoto da TAP como ela era durante décadas, o futuro é o desastre. Mas, atendendo a que não sou especialista na matéria, oxalá esteja enganado. Porém, parece-me evidente que a TAP que foi privatizada há cinco anos não é a mesma de hoje. Hoje, a TAP tem mais trabalhadores, mais rotas, mais e melhores aviões. Transformou-se numa deplorável low-cost nos voos de médio curso, concorrendo com as low-cost na Europa, mas abriu todo um novo mercado rentável na América do Norte (56 voos semanais). Mal ou bem, só o futuro o diria, Neeleman tinha uma estratégia e um novo plano de negócios para a companhia, que a pandemia deitou por terra e que, com a sua saída, provavelmente terá fim. Restará então a antiga “companhia de bandeira”, com pessoal e aviões a mais, para servir destinos de emigração, como a Venezuela ou os PALOP, que nem as contas pagam, e as ilhas, que são rotas subsidiadas. Nem o turismo do Algarve, ou o do Porto, ou o da Madeira, ao contrário do que se diz, precisam da TAP: onde há procura, não faltará oferta. E o mesmo se diga nos destinos europeus: se faltar oferta que a TAP tiver de preencher, é porque as rotas são deficitárias. Restará Lisboa e o Brasil, se mantiver a mesma pujança, após pandemia: não chega para sustentar os custos de funcionamento da empresa.

É verdade que há ainda um derradeiro, um último e desesperado trunfo a que a TAP poderá lançar mãos: o patriotismo dos portugueses. Esse absurdo e tantas vezes mal retribuído orgulho e amor dos portugueses pela TAP e por voarem numa companhia aérea que tinha as cores de Portugal e onde se falava português a bordo. Eu fui testemunha e praticante disso, mas, como tantos outros, fui-me cansando de ser cada vez mais mal tratado e recompensado por essa fidelidade inútil. Eu sei que agora nos vão dizer “a TAP voltou a ser nossa!” e mais umas quantas frases supostamente mobilizadoras do género. Porém, a “TAP nossa” — isto é, sob gestão dos suspeitos do costume — não é coisa que, francamente, me mobilize. E o slogan alternativo — “Voe na TAP para ajudar a pagar os prejuízos” — é capaz de me deixar maldisposto de cada vez que entrar a bordo.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia

14 pensamentos sobre “Nas asas do pesadelo

  1. Com tantas dúvidas e poucas certezas se fosse eu nunca teria concordado que dessem o nome da minha mãe a um avião. Mas isso sou eu.

  2. Quem me dera ter a veleidade de integrar esse mundo dos que pagam até 50% de impostos… No fundo, mais do mesmo: gente que sempre viveu bem, e assim há-de continuar, e que passa a vida permanentemente em modo “calimero” só porque paga muitos impostos! Os outros, lá está, ganham uma porcaria de 800 ou 1000€, passam a vida a ser acusados de ser mal-agradecidos, pouco competitivos, desonestos, propensos a greves e a ser queixinhas e piegas… Senhor MST, quer trocar comigo? Tenho um ordenado bem abaixo do seu mas, como pago menos impostos, sou um privilegiado, um membro da “nomenclatura”… Uma vez mais, mais do mesmo: as elites, que debitam atoardas sobre serem melhores e terem mais por trabalharem melhor e mais horas (é asqueroso ter de levar com os discursos de “tenho mais porque trabalho 12 horas todos os dias desde pequeno”, quando o bom aspecto que geralmente apresentam não significa nem 2 horas de trabalho, quanto mais 12…). Volto a perguntar: quer trocar de posto com a geração 1000€? Pois, bem me parecia que não…

    • Geração 1000 euros ?

      A maior parte da população ganha à volta de 700.

      Para grande parte da população um salário liquido de 1000 euros é quase ser rico.

      • Sim, é o que temos… Mais uma razão para apelar a algum decoro por parte de quem tem vencimentos mais elevados (os tais “contribuintes”) no habitual choradinho a respeito dos impostos que lhes são “roubados”. Num país decente talvez fossem classe média – em Portugal são uns senhores, por isso calem-se ou vão-se embora (na prática continuam cá todos, é porque não hão-de viver assim tão mal)!

        • O MST insere-se cada vez mais naquela categoria de comentadores que torce muito o nariz a tudo o que seja pobre ou classe média baixa, desde que sejam portugueses (se forem funcionários públicos então, que horror!), porque se forem imigrantes, refugiados, ciganos, aí armam-se em humanistas, sacando dos seus galões de serem eternos “repórteres de guerra” e de terem muito mundo. O outro barbudo que anda para aí a dizer inanidades sobre redes sociais e a mexer na cara/tirar e por os óculos é outro claro exemplo desta forma de estar (basta atentar no ódio que tem ao PS e ao Costa e no amor que nutre pelos pobres estrangeiros).

          • 100‰ de acordo.

            Parece que a “piedade” das elites é dirigida só ás vitimas que estão da moda do politicamente, como refugiados, ciganos etc. O povo que se lixe.

            Se bem que o Tavares também chorou muito pelo Ricardo Salgado, senhor que passou grandes dificuldades, coitado.

            O pobre senhor doutor Salgado, que para os tribunais não tem nada de seu, passa a vida em almoçaradas de negócios em restaurantes finos. Que sofrimento deve ter quando lhe apresentam as contas, coitado. Ainda bem que estamos cá nós para as pagar…

            Mas como é da família do Tavares, no que lhe toca tem boa imprensa…

            Mas tirando isso, as habituais patadas na poça da direita e do politicamente correcto, e o amor à famiglia Espirito santo, o Tavares ás até diz umas coisas giras.

  3. Ai que bom era eu ganhar 1.000 euritos por mês…
    Pagava um bom jantar de 🦐 pelo menos uma vez por mês à minha “cara metade” 😂 😂 😂.

  4. Bom, o que gostaria, mesmo, era de saber o que é que o Miguel Sousa Tavares faria se tivesse que decidir.
    Falência? O quê?! Não é o que se está afazer é o quê?
    Que vamos todos pagar, que houve má gestão anterior de amiguinhos, etc, etc. Tudo isso é verdade e já sabiamos. Mas agora, como se deve fazer?
    Se sabe, diga e influencie os meios que conhece.

  5. Que infantilidade. Agora a UE não tem acesso aos R&C e fica à espera das conferências do Ministro. Que até já aconteceu depois da decisão da UE. E diz que não é um expert em companhias aéreas, faria se fosse. Se calhar até apresentava um solução alternativa, para variar. Aos comentadores são permitidas rodas as fantasias sempre.

  6. Bem a Helena Garrido foi das primeiras que li que até apresentou uma solução alternativa. Baseada na falsidade que Neeleman queria ficar. Depois do Estado ter feito de tudo para envolver os privados na solução. É preciso ter lata.

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