Algumas coisas que aprendemos com esta crise

(Alexandre Abreu, in Expresso Diário, 21/5/2020)

A epidemia está longe de ter terminado e é cedo para tirarmos conclusões categóricas. A experiência histórica sugere que haverá provavelmente mais vagas até dispormos de uma vacina. A crise económica está apenas a começar e não vai ser ligeira. Mas há algumas coisas que podemos já aprender com a crise dos últimos meses e que é boa ideia começarmos já a registar e recordar, à medida que a vida começa a regressar à normalidade possível e antes que o manto do esquecimento se vá estendendo sobre a excecionalidade destes últimos meses.

O SNS, barreira contra a barbárie. Após anos decortes, subinvestimento e desperdício de recursos na contratualização muitas vezes irracional de serviços e meios de diagnóstico externos, o nosso Serviço Nacional de Saúde, público e universal, mostrou toda a sua qualidade técnica e humana e é um motivo de orgulho e tranquilidade para todos.

Ficou claro que quando as coisas apertam no domínio da saúde, não queremos estar dependentes de operadores privados que entram em lay-off porque esta crise não é suficientemente lucrativa, nem de seguros de saúde privados que alegam condições excecionais, muito menos à mercê de um sistema em que só quem pode pagar é que tem direito à saúde e à vida. Um Serviço Nacional de Saúde público, universal, gratuito e bem apetrechado é uma condição de civilização. Depois das palmas, devemos acarinhá-lo e dotá-lo dos recursos adequados.

Estamos tão seguros quanto o menos seguro de entre nós. Numa epidemia, quando alguns não têm possibilidade de aceder a cuidados de saúde, o risco aumenta para todos. Mas o mesmo sucede com a habitação em condições, ou com a segurança no emprego e no rendimento. Aqueles que, por falta de condições básicas de habitação e subsistência, não têm possibilidade de se resguardar adequadamente irão inevitavelmente expor-se a si e aos outros a riscos acrescidos e dificultar o controlo de qualquer surto epidémico. A habitação, o acesso ao emprego e a segurança no rendimento são, além de direitos humanos, fatores de saúde pública.

A sociedade existe e sem ela estamos perdidos. Quando recolhemos às nossas casas e limitámos os nossos contactos, quando nos vimos perante o risco de colapso dos sistemas de abastecimento, mas também quando neste contexto redescobrimos o valor e a importância da solidariedade e dos laços comunitários, percebemos que ninguém é uma ilhae que todos dependemosuns dos outros. A frase de Margaret Thatcher, “a sociedade não existe, só existem indivíduos e famílias”, além de objetivamente falsa, é um manifesto sociopata.

A produção local importa. A deslocalização da atividade produtiva no contexto da globalização vulnerabilizou trabalhadores e comunidades inteiras e criou absurdos ecológicos como os que levam legumes e fruta a dar a volta ao mundo antes de chegar às nossas mesas. No contexto desta crise, percebemos que a dispersão extrema das cadeias de valor é além do mais um fator de vulnerabilidade acrescida e que há muitas coisas – alimentos, medicamentos, equipamentos essenciais – que não podemos deixar de produzir. Devemos voltar a enraizar localmente a produção e desglobalizar aquilo que nunca devia ter sido globalizado.

A pobreza também faz perder anos de vida. No contexto do debate sobre o desconfinamento, foi argumentado por muita gente – de forma inteiramente correta – que a pobreza também mata. O argumento foi invocado para levar-nos a sair de casa e regressar à atividade, também em nome do valor maior da vida. Mas precisamente porque é inteiramente verdadeiro, este argumento deve ser levado às suas consequências. Combater a pobreza é também salvar vidas, e é também por isso que precisamos de reforçar as principais armas conhecidas contra a pobreza: serviços públicos universais e gratuitos e prestações sociais abrangentes e adequadas, financiadas por impostos progressivos. A nossa sociedade tem um nível de prosperidade suficiente para assegurar que ninguém vive na pobreza, só precisamos de distribuir melhor a riqueza que existe.

A importância da ciência. A ciência não é a revelação da verdade, mas é a busca sistemática pela correção do erro. É isso que a distingue das crenças. No contexto desta crise deparámos-nos com uma epidemia de boatos e desinformação e isso mostrou a importância da literacia científica para a nossa sociedade. A varíola, erradicada em 1979 graças à vacina, matou entre 300 e 500 milhões de pessoas só no século XX: números que ilustram a distopia catastrófica de um mundo em que o movimento antivacinas conquistasse mais adeptos. Essa e outras formas contemporâneas de obscurantismo são um perigo face ao qual devemos mobilizar-nos.

A política é indispensável. A política é o domínio das escolhas coletivas, que envolvem opções entre valores e interesses contraditórios. Quando o governo, após escutar os epidemiologistas que em geral apelavam à manutenção sine die do confinamento e os empresários e economistas que em geral apelavam ao desconfinamento imediato, optou por um rumo que procura conciliar de determinada forma os objetivos de controlo da epidemia e minimização da recessão, fez, bem ou mal, uma escolha política. Fê-lo com a legitimidade de quem foi eleito, de quem é escrutinado e limitado pelos outros órgãos de soberania e de quem vai continuar a ser avaliado pelos cidadãos. Ainda bem que assim é. A política não pode ser dispensada, nem as decisões coletivas delegadasem especialistas.

Quando é indispensável, o impossível torna-se alcançável. A pandemia de COVID-19 provocou, exigiu, algo que todos julgaríamos impensável: que mais de um terço da população mundial, e a grande maioria da população portuguesa, recolhesse a casa e reorganizasse profundamente a sua vida para responder a uma ameaça de saúde pública. Esta capacidade de responder coletivamente perante uma ameaça existencial é uma lição que devemos reter no contexto da resposta à crise climática, que pende igualmente sobre a vida e saúde de todos nós e dos nossos filhos e netos. É possível viver e produzir de maneiras diferentes. Sendo isso indispensável, temos mesmo de fazê-lo.

A liberdade que importa. Nas horas mais difíceis desta crise, foram-nos dados a perceber os sentidos mais profundos e fundamentais da liberdade. Não se trata da liberdade negativa de negociar e enriquecer. Trata-se da liberdade, de que temporariamente nos vimos privados, de nos movimentarmos como quisermos e estarmos com quem quisermos. Trata-se da liberdade, de que nunca considerámos abdicar, de nos expressarmos e participarmos nas decisões coletivas. E trata-se de nos mantermos livres da fome, livres da necessidade e livres do medo. São liberdades que se constroem em cooperação e não em competição, em segurança e não em precariedade, em sociedade e não cada um por si.


4 pensamentos sobre “Algumas coisas que aprendemos com esta crise

  1. Eu acho que não “aprendemos” nada.

    Quem já sabia continuou a saber, os outros vão tentar aproveitar-se ao máximo dos serviços do estado nesta situação de necessidade e quando esta passar vão voltar ao mesmo.

    Foi assim na ultima crise. Na altura pensei que pelo menos uma coisa a crise tinha de bom, tinha descredibilizado de vez as teorias neoliberais da desregulação e suposta autoregulação – qual não foi a minha surpresa quando depois vi os partidos mais ferrenhamente neoliberais a ganhar eleições por toda a parte e o discurso neoliberal a ganhar mais força que nunca – por mais que fosse desautorizado pelos factos.

    O pessoal da esquerda, que idolatra uma imagem fake de um povo sabia, digno e sereno esquece-se de uma coisa fundamental – o povo é burro como uma porta, só percebe e só quer perceber de futebol, novelas e casas dos segredos.

    Dispondo dos meios necessários qualquer charlatão lhe consegue dar a volta com uma facilidade extrema. Fico em estado de angustia permanente quando leio sobre estudos comprovados que atestam coisas como que a maneira de vestir e de falar dos candidatos tem quase tanta força como aquilo que dizem e que fazem. É um pesadelo.

    E por isso podem contar que se nos safarmos desta o pesadelos neoliberal vai continuar.

    Dão-lhes mais uns campeonatos da bola, apresentam um candidato com uma gravata gira e uma maneira de falar doutoral e as “camadas populares” esquecem logo as lições todas que as crises lhes estão constantemente a dar.

    • Lamentavelmente, parece-me que tem razão. Mas isso não significa que baixemos os braços. Educar é preciso. Trazer mais pessoas para o nosso campo. Porque os da banda do capitalismo selvagem não dormem e andam desde sempre a “educar” em sentido contrário. Será o “povo” inatamente burro? Ou será que tem sido “educado” para o ser?

      • Em parte tem razão, o neoliberalismo dispõe de uma máquina da propaganda gigantesca.

        Mas essa máquina de propaganda alimenta-se da estupidez humana.

        O seu êxito só seria “desculpável” se estivéssemos a falar de questões meramente teóricas não comprováveis pela prática de todos os dias.

        Ora o completo falhanço da doutrina neoliberal é visível todos os dias, ao longo de décadas. São milhares de casos, incluindo grandes “bancarrotas mundiais” que provam que as teorias da desregulação são uma história da carochinha para engordar malandros.

        Por outro lado muitas das pessoas que são prejudicadas mas professam essas doutrinas têm estudos e são informadas – isto vai muito além da simples educação e acho que tem de ver com o ser humano em si mesmo.

        A esquerda parte de premissas erradas, que os seres humanos são iguais e fundamentalmente bons, que s´p a sociedade os corrompe ou mantém na ignorância etc etc etc. Essa é uma visão que generalizada é errada e parcial, só verdadeira até certo ponto.

        Acontece que grande parte das pessoas, mesmo com acesso a educação, não se rege pela ética ou pela lógica, mas por caprichos e impulsos irracionais, em linguagem de rua diz-se que funcionam por “vipes”.

        Vemos isso na bola, onde milhões de pessoas “sofrem pelo clube” e por vezes até se agridem e matam basicamente porque sim, porque lhes deu para escolher uma camisola qualquer, porque sim e pronto.

        Na politica vemos o mesmo fenómeno. Grande parte das pessoas escolhe este ou aquele partido ou ideologia como se fosse um clube de futebol e “torce” por ele por mais porcaria e trafulhice que essa partido faça, basicamente porque é o “seu” partido ou ideologia.

        isto tanto se aplica ao neoliberalismo já completamente falido em termos lógicos e factuais mas que continua a ser a ideologia mais forte, como naquela esquerda que continua a afirmar que o estalinismo norte coreano é democracia ou que nos países ocidentais vivem em estado de ditadura racista em que as comunidades negras e ciganas são terrivelmente perseguidas.

        Os factos simplesmente não afectam um clubista, agarra-se a uma “historinha” e não sai dali por mais estudos que tenha. Pode ser professor universitário e torcer por um clube de futebol com a mentalidade d num puto de dez anos ou afirmar que a “autoregulação é optima, ou que a Coreia é uma democracia ou que Portugal é o terceiro Reich e persegue as pessoas de cor.

        Não adianta apelar á razão. Embora de facto não haja muito mais que se possa fazer, esperando que um dia acabe por dar um “vipe” diferente a essas pessoas.

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