Manifesto. A nossa escolha é o nosso apelo: votar na ‘geringonça’

(Manifesto Pró-Geringonça, in Expresso, 28/09/2019)

Há quatro anos, celebrámos o fim de um tabu. Era finalmente possível uma solução governativa suportada pelo conjunto da esquerda. Foi preciso um Governo de direita de uma inaudita agressividade social para o conseguirmos, quase meio século depois do 25 de Abril. Pela primeira vez a esquerda deixou de se enredar em guerras pueris, que tantas vezes entregaram o poder à direita, e centrou-se no essencial — o bem comum.

A solução, que os detratores apadrinharam ‘geringonça’ e que carinhosamente e com orgulho a tomámos como nossa, nasceu da vontade dos eleitores. Eles exigiram-na ao longo da campanha eleitoral aos líderes dos principais partidos de esquerda. António Costa, Catarina Martins e Jerónimo de Sousa tiveram o mérito de saber ouvir os que neles votaram. Mas também nasceu da correlação de forças que saiu daquelas eleições. A ‘geringonça’ nunca teria existido com uma maioria absoluta ou se dependesse de outras forças políticas.

Nestes quatro anos, assistimos a um aumento extraordinário das reformas, ao aumento do abono de família, à eliminação dos cortes no subsídio de desemprego, à instituição da gratuitidade de manuais escolares para o 1º e 2º ciclos, à reposição de rendimentos e direitos, ao aumento do salário mínimo nacional em 19%, ao aumento da progressividade do IRS ao mesmo tempo que se aumentavam impostos sobre o lucro e o património imobiliário de grande valor, à reversão das privatizações do Metropolitano de Lisboa, Carris e STCP, à redução da propinas no ensino superior e a uma drástica redução do preço dos passes sociais. PS, BE, PCP e PEV foram os responsáveis por estas conquistas. E não nos esquecemos do que Pedro Passos Coelho nos disse: que vivíamos acima das nossas possibilidades. O salário mínimo era (e ainda é) uma boa ilustração do que consideravam ser “as nossas possibilidades”.

Poucos serão os governos que podem chegar ao fim de uma legislatura e apresentar esta lista tão vasta de medidas positivas. Uma lista que teve efeitos muito concretos na vida das pessoas. E que mudou o ponto em que hoje se faz o debate político. Já não debatemos se o ensino superior faz parte dos deveres do Estado ou se deve ser pago por quem se forma. Ou se os utentes do SNS têm o dever de o pagar quando dele precisam, ignorando que é nos impostos que a redistribuição da riqueza se faz, não transformando o Estado social num Estado assistencialista. Ou se os transportes públicos devem ser financiados pelo Estado para substituírem o uso do carro individual. Ou se manter salários miseráveis é uma forma eficaz de criar emprego. Depois destes quatro anos, será mais difícil privatizar ou aumentar as propinas, as taxas moderadoras e o preço dos transportes públicos. Será mais difícil impor o discurso da austeridade.

Claro que este não foi o Governo que muitos de nós desejávamos. Sobreviveu a velha promiscuidade entre interesses privados e interesse público, adiaram-se investimentos urgentes e, contra a precariedade laboral, a crise na habitação e muitos outros problemas do país, ficaram reformas por fazer. Mas conseguimos travar o discurso da desesperança. E bem sabemos que este governo teria sido outro, com outras prioridades e outras escolhas, se não dependesse de compromissos à esquerda.

Nas próximas eleições, muitos desejariam votar na atual solução governativa e não em qualquer partido especifico. Querem reeditar esta solução com os partidos de esquerda que consigam representação parlamentar. O Partido Socialista, mesmo próximo da maioria, não pode nem deve desbaratar o capital político construído por si e pelos seus parceiros nesta legislatura. Só podemos, como eleitores sem partido, fazer o que fizemos há quatro anos: garantir que o PS fica dependente de quem se compromete com as causas sociais, ambientais, políticas e económicas, não dando maiorias absolutas nem entregando o futuro do próximo governo a aliados que não tenham um compromisso firme com o Estado social e os direitos dos trabalhadores.
Sabemos o que foram as maiorias absolutas em Portugal. Sabemos o que foram os últimos quatro anos. Por isso, a nossa escolha é o nosso apelo: votar na ‘geringonça’. Com o nosso voto faremos a nossa parte, criando as condições políticas para que ela seja inevitável.


*Afonso Cruz (escritor), André Letria (ilustrador, editor), André Freire (politólogo, professor universitário), Bárbara Bulhosa (editora), Beatriz Batarda (atriz), Boaventura Sousa Santos (professor universitário, escritor), Daniel Oliveira (jornalista), Daniel Sampaio (psiquiatra, professor universitário), Noiserv (músico), Ernesto Costa (professor universitário), Filipe Duarte (ator), Filomena Cautela (apresentadora), Gonçalo Waddington (ator, realizador, encenador), Irene Lima (música), José Pedro Vasconcelos (apresentador), Lídia Jorge (escritora), Marco D’Almeida (ator), Miguel Gonçalves Mendes (realizador), Paulo Fidalgo (médico), Pedro Abrunhosa (músico), Pilar Del Río (jornalista), Sérgio Godinho (músico), Mísia (cantora), Tatiana Salem Levy (escritora), Tiago Rodrigues (ator, encenador), Valter Hugo Mãe (escritor), Vasco Lourenço (militar)

6 pensamentos sobre “Manifesto. A nossa escolha é o nosso apelo: votar na ‘geringonça’

  1. E já agora, digam-me lá como é que isso se faz? Em qual quadradinho faço a cruz do voto? No boletim de voto está algum partido chamado “Geringonça”? Ou alguma coligação dos 3 partidos? Está lá a dizer; olhe agora vote neste, porque aquele já tem muitos votos, ou vote no outro mais abaixo que tem poucos, para equilibrar as contas. Não alimente confusões. É tudo muito simples. Cada um vote onde acha que deve votar? Não será assim? Eu nem conheço outra maneira de votar em democracia.

  2. Tradução: por favor não votem PS na semana que vêm.
    De resto, não podia concordar mais com a premissa do texto. Goste-se ou não, a principal vantagem de se ter “montado a Gerigonça” em 2015 foi colocar em xeque a óbvia complacência que se instalou nos grandes partidos (PS e PSD. O mal do CDS é outro…) do arco e Portugal só ganha quando isso acontece.
    Noutra altura (pré Cavaquismo isto é) diria que os resultados seriam semelhantes caso a Gerigonça tivesse usado o PSD como chassi do aparelho, mas infelizmente a influência de Cavaco acelerou o processo de putrefação ideológica e funcional deste partido para máximos históricos. O PSD, à semelhança dos grandes partido da direita internacional, está a atravessar uma crise de identidade, encontrando-se a oscilar perigosamente entre dois pontos de absoluta mediocridade: o centro-direita do mais do mesmo e a extrema-direita fascista, daí que nem vale a pena fazer o esforço intelectual para este lado.
    A mensagem a retirar deste último executivo é que, basicamente, é vital diluir a influência do PS no governo para o tornar útil. Se o país cair na asneira de dar mais uma maioria absoluta ao PS na próxima semana, garanto que daqui a outros 4 anos a retórica em torno do executivo será radicalmente diferente.
    O PS com a idade tornou-se uma espécie de mula velha da política. É uma partido que têm muita experiência de governação (há que reconhecê-lo pois é um facto) mas que se tornou incrivelmente arrogante (assim como os seus apoiantes) e calculista nesse sentido. Como a dita mula, o PS só se mexe se lhe cheirar a quid pro quo no horizonte.
    A coisa chegou a um ponto que acredito que se o PS fosse presenteado com um “botão mágico” que curesse o cancro e removesse todo o excesso de CO2 da atmosfera num dia, o António Costa só o iria pressionar se e quando tal se traduzisse num salto nas sondagens. Desde o fim dos anos 80 que o PS (e PSD) governam para apenas para ganhar, isto é, não há medidas verdadeiramente altruístas. Todas as decisões destes partidos se reduzem a garantir (ou não) o próximo mandato. Posto isto, impor parceiros ideológicos ao PS (ou ao PSD se um dia tal for possível) que procurem uma validação da sua legitimidade governativa perante os portugueses (algo que o PS já assume por defeito) é mais que uma vantagem para o país, é uma necessidade. A mula velha está demasiado habituada aos capatazes do costume.

  3. Aí está a esquerda do caviar na sua melhor apresentação e representação.
    Gente que não produziu nem produzirá de útil o equivalente a um caroço de azeitona mas sempre dispostos a sentar-se á mesa do orçamento para abocanhar o melhor pedaço.
    Há que carregar nos impostos indiretos. Tão igualitários que eles são e tão justos; não é meus queridos geringonços?
    Mas como é que se acabava com os cortes e com a famigerada sobretaxa das pensões e salários, superiores a 5000 euros?
    É preciso redistribuir: tirar pouco a muitos, mesmo que pouco tenham, para dar muito a poucos mesmo que já tenham que sobre.
    E que seja rápido, porque distribuir o que se não produz não pode durar muito. Mas há que aproveitar as taxas de juro negativas e o turismozinho para gastar à tripa forra. Amortizar a dívida pública, com a alocação da poupança nos juros, que perfídia. Isso fica para outros. Nessa altura o BE lá se encarrega de gritar, não pagamos. Honrar o pagamento das dívidas? Isso é para tansos.
    Há que repor direitos e rendimentos, claro está, a quem os tem. Para quem ganhava menos de 1500 euros a reposição foi despicienda mas para quem recebia mais de 3000 euros a reposição foi de largas centenas, não é querido V.L.?
    E aquele brutal aumento de impostos que o Gaspar institucionalizou constitucionalmente? Áh, está aqui o meu canário a dizer-me que não que o brutal aumento de impostos apenas foi postulado pela lei geral. Desde que o PAN apareceu os canários ficaram muito prespicazes, pelo visto mais que o absorto povo português médio , que intelectualmente mais parece um anão que engole esta hipócrita falácia de dar como facto consumado algo que facilmente seria revertido por uma simples lei. E ainda por cima o autoproclamado chefe da geringonça tem a desfaçatez de a ele se referir sem um pingo de decência e respeito pela inteligência de alguns cidadãos que não se deixam ludibriar pela verborreia de qualquer vendedor de banha da cobra, barata e rançosa.
    Mas “cautela”, já há quem vá tendo não vá o diabo tece-las e cautelas e caldos de galinhas nunca fizeram mal a ninguém; e já agora, porque será que os galos não precisam de óculos de sol? Porque só há poleiros à sombra ou porque cantam bem?

    • Porra!

      Nota. Este tipo, de tão alucinado e burro que é, deve dormir num estábulo qualquer e manjar à manjedoura. Falta de paciência, schiiiiiiiiiiii: que o tipo se vá enfrascar no Aspirina B, e largue por lá as suas recorrentes bacoradas pois naquele habitat não fazem diferença nenhuma, mas que desopile.

  4. Neste sentido, Catarina Martins tem razão: estas
    eleições são entre o PS e o resto da esquerda. Porque só o BE e o PCP podem
    impedir uma maioria absoluta que o
    excesso de calculismo de Costa tornaria
    especialmente perigosa.

    Vê este artigo do Daniel Oliveira no Expresso em papel desta semana, ó da Estátua.

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