Ó Negrão, o que é que andas a fumar?

(Por Estátua de Sal, 10/07/2019)

Estive a ver o demorado e longo debate do Estado da Nação na Assembleia da República.

Costa apresentou e repisou os trunfos do governo da Geringonça: mais rendimento, mais emprego, menor déficit, menor dívida pública em percentagem do PIB, todos os orçamentos aprovados sem medidas inconstitucionais. Congratulou-se com todo esse percurso e saudou os parceiros de esquerda que o viabilizaram.

A direita, tentou desconstruir os benefícios de tal trajecto, de forma esquizofrénica e aberrante, já que o fez sempre em nome daquilo que ela própria denega:

1º O governo falhou no investimento público, que baixou, dizem eles. Mas a direita não defende menos Estado, logo menos investimento público? Então como pode criticar o governo por fazer aquilo que o seu ideário prossegue?

2º O governo falhou porque os serviços públicos estão depauperados, mormente a saúde. Mas a direita não é contra o reforço do SNS? Não votou contra a sua criação? Então como pode criticar o governo por fazer aquilo que o seu ideário prossegue?

3º O governo falhou porque a carga fiscal está elevadíssima. Mas a direita não impulsionou um “brutal aumento de impostos”, como reconheceu e dizia o ministro Gaspar? Então como pode criticar o governo por este fazer aquilo que sempre fizeram e defenderam?

4º O governo falhou porque o crescimento é anémico, dizem eles. Mas o PIB não caiu à volta de 10% durante a governação do Passos? Como pode a direita vir agora falar de crescimento reduzido?

O problema da direita portuguesa é que mantém com o PS uma “relação de dor de corno”, de ciúmes encapotados. A direita tem ciúmes do PS por este, em muitos domínios, lhe ter roubado a agenda política, levando avante grande parte das medidas do seu programa político, e fazendo-o até de uma forma mais eficaz e com menos atrito social devido ao apoio dos seus parceiros de esquerda.

Assim, como as críticas da direita ao PS são feitas em nome de uma agenda política que não é a dela, o discurso da direita é tudo menos convincente. Era mais credível dizerem apenas que querem governar para evitarem as medidas de reforço dos rendimentos do trabalho e outras medidas de carácter social que o PS aprovou para cumprir os acordos base da Geringonça. Mas não dizem. São melífluos e dissimulados para não perderem o apoio dos eleitores mais pobres.

E foi este o tom das intervenções ao longo de várias horas, não havendo novidades de monta até que na sua intervenção de fundo, Fernando Negrão, do PSD, produziu a maior anedota da sessão. Depois de, com grande veemência, ter repisado todo o libelo argumentativo contra o governo acima elencado, Negrão – demonstrando um estado de alucinação preocupante -, anunciou aos quatro ventos que “o PSD vai ganhar as próximas eleições”!

Ó santa ingenuidade, ó Negrão. Bem se vê o estado de negação em que os direitolas navegam. O Passos bem invocou o diabo para afastar a Geringonça do poder, mas já lá vão quatro anos e o diabo não respondeu. Não sei com que santo ou força do mal está, desta vez, o Negrão, a contar. Mais fogos catastróficos? A mão invisível de São Marcelo? Mais uma manobra de São Ventinhas e quejandos justiceiros contra o PS? Não sei.

Apenas sei que, por muitas desgraças que a direita invoque, por muitos casos de falhas na saúde e nos serviços públicos que a comunicação social anuncie e amplifique, o país está melhor e – contrariamente ao que dizia o Montenegro -, para o país estar melhor não foi necessário que os portugueses ficassem pior.

Por isso, ó Negrão, como não consegues perceber isso, e como não és burro de todo, só me resta perguntar-te o que é que andas a fumar quando lanças essa atoarda de vitória eleitoral em Outubro. É que os portugueses sofrem e o país ainda está cheio de carências. Mas os portugueses também sabem que, com o teu PSD na governação, estariam ainda a sofrer muito mais, e que tal sofrimento seria imposto de forma sádica e deliberada como fez o Passos Coelho de má memória.

Ao menos o PS, quando implementa a austeridade, ainda faz mea culpa e pede desculpa aos portugueses, enquanto que, com o Passos, os portugueses tiveram que sofrer e calar, dizendo o biltre que era para expiarem os seus excessos e por terem pecado, vivendo acima das suas possibilidades.

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14 pensamentos sobre “Ó Negrão, o que é que andas a fumar?

  1. Esta direita nunca saiu de 2015. Continuam à espera que o Pedro consiga finalmente formar governo. É triste mas é deixá-los.

  2. Eu também estive a ver o negrão ! Cada vez mais gaguelhas, cada vez mais “aflautado”, cada vez mais “laranja” que a cal da parede (Ah ! enganei-me…a cal é branca não é ? Bem ! Resumindo, cada vez mais viscoso, destrambelhado, mais cor de burro a fugir a sete pés…sobretudo depois das intervenções da Esquerda parlamentar e do deputado Rocha Andrade do PS !

  3. […]

    4º O governo falhou porque o crescimento é anémico, dizem eles. Mas o PIB não caiu à volta de 10% durante a governação do Passos?* Como pode a direita vir agora falar de crescimento reduzido?

    Nota. Ó da Estátua: e o que é que tu fumas quando vês o Canal Parlamento, nada?!

    https://estatuadesal.com/2019/06/15/a-nostalgia-das-causas/#comment-14764

    Asterisco. Comparas coisas inmcomparáveis quando te dá jeito a ver se passa, pá?

    • Incomparáveis ó RFC? Então os direitolas não comparam já os níveis de investimento público e a qualidade dos serviços públicos com os do tempo do Passos, e eu não posso comparar as taxas de crescimento do PIB?! 🙂

      • Nota. Estavas intervencionado pela Troika com avaliações periódicas (o pilim-pilim pingava pouco), pá. Podes fazer um discurso a propósito das conveniências ideológicas, e das convergências!, que excelentemente serviram aos moços do PSD/CDS face aos senhores mais sabidos que exibiram durante anos a cartilha do FMI e a ortodoxia da UE, claro, mas não podes comparar os dois momentos a seco. E olha qu’isto não é uma balela: tens o PS da bancarrota, Passos Coelho e Carlos César dixit, PSD/CDS do Pedro e da Assunção e dos senhores de preto com chapéu alto e, agora, o PS do António Costa e do Mário Centeno que era quem hoje se apresentou à oral do exame. A propósito disto, eu e os camaradas revolucionários nos confessamos, deveria ser dada atenção pel’A Estátua de Sal ao simbolismo da manif da CGTP (enquanto alguma malta andava a ver as bonecas nas redes sociais).

  4. Mais um atentado ao Estado de Direiro, desporreiro pá!

    Ministério Público
    Juiz Ivo Rosa acusado outra vez de violar a lei

    Magistrado queria impedir Ministério Público de usar no processo da EDP dados recolhidos na Operação Marquês e no processo BES.

    Ana Henriques

    11 de Julho de 2019, 19:45

    “Os segredos bancário e fiscal cedem por imposição legal – independentemente de autorização do titular da conta – ao interesse público de investigação criminal, sendo válida a prova assim apreendida”, escrevem as magistradas, segundo as quais ao tentar impedir o Ministério Público de utilizar estas provas, Ivo Rosa meteu a foice em seara alheia, uma vez que não é o juiz titular, nem do caso EDP (embora já o tenha sido no passado) nem do processo BES.

    “Não tinha competência para se pronunciar sobre os elementos probatórios resultantes da intercepção de comunicações ou de correio electrónico”, criticam, acrescentando que, quando se “arvorou em juiz competente sem o ser” impediu a recolha de prova indiciária e “violou o princípio do juiz natural, bem como a esfera da competência exclusiva do seu colega”. Ao negar ao Departamento Central de Investigação e Acção Penal a utilização deste material probatório, Ivo Rosa adoptou uma solução que “padece de fundamento legal”, tendo incorrido em “nulidades insanáveis”.

    https://www.publico.pt/2019/07/11/sociedade/noticia/juiz-ivo-rosa-acusado-violar-lei-1879624

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