Jurisprudência do “Governo Sombra”

(Por Valupi, in Blog Aspirina B, 03/07/2019)

No último Governo Sombra – ou, como a minha vizinha do 4º andar o rebaptizou, no “Vai Pela Sombra” – tivemos direito a considerandos jurisprudenciais de três personalidades públicas de altíssima influência social e política. As ideias que nos deixaram merecem a nossa melhor atenção:

RAP – […] Agora acendeu-se a luz, a gente vê as baratas e pode pôr-lhes um pé em cima. […] É ou não é melhor que haja gente a ser investigada, julgada e até presa? E todos dissemos “É!”. E, pelos vistos, o PS e o PSD disseram “Olha que não é, a gente gostava mais como era antigamente…”

RAP – Não tenho nada contra garantias, tenho qualquer coisa contra excesso de garantias.

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PM – […] Não se faz justiça é quando se tem a sensação, como se teve durante demasiados anos em Portugal, que os casos a certa altura não chegavam mais longe porque o Ministério Público – não sei se por instruções directas, maquinações indirectas, não vou fazer juízos de intenção quanto a isso – mas é um facto: os processos não seguiam e passaram a seguir.

PM – Nós sabemos duas coisas. E essas duas coisas não provam nada, mas nenhuma delas contribui para um ambiente saudável. Sabemos que Ivo Rosa tende a discordar do Ministério Público no seu historial, e portanto nós temos aqui a ideia de que ele vai querer desfazer coisas, nomeadamente coisas feitas por Carlos Alexandre. E a segunda coisa foi José Sócrates ter-se manifestado satisfeito com este juiz de instrução.

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JMT – Atenção, no caso Sócrates sou completamente clubista. Espero que o senhor vá a julgamento, e seja condenado e vá para a prisão.

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Ricardo Araújo Pereira, genial humorista e lesado do BES, acha que os “corruptos” não se distinguem das nojentas baratas, uma peste que deve ser esmagada pelo implacável pé de um Estado policial. A partir desta ideia, soltou o seu entusiasmo com a visão de prisões cheias de “corruptos” a esbracejar como (lá está, o senhor é mesmo genial) baratas tontas e sem garantias. As garantias são uma chatice, explica este reputado jurisconsulto fedorento, porque atrasam o espezinhamento desses seres minúsculos, asquerosos e destituídos de direitos fundamentais que ele encontra amiúde – já devidamente investigados, julgados e prontos para entrega em Évora – nas capas da Cofina et alia. A estupenda novidade que teve a generosidade de partilhar connosco no programa foi a revelação de que PS e PSD são partidos que defendem criminosos e que atacam magistrados e polícias – ou talvez não sejam, mas este génio também não está preocupado porque mete ao bolso a mesma sacada de euros em qualquer dos casos.

Pedro Mexia, um dos mais brilhantes intelectuais do coiso e tal por causa disto e daquilo, explicou aos telespectadores e radiouvintes que a Justiça é uma sensação. Por exemplo, ele sente que certos processos envolvendo um certo cidadão, que ao tempo era primeiro-ministro, não chegaram a tribunal por instruções directas à mistura com maquinações indirectas; deixando esta ideia apenas como sorridente sugestão para entreter o povoléu dado não ser avisado ir além da pulhice sonsa, para mais tendo em conta que o senhor é formado em Direito pela Católica e adquiriu uma vaga noção do que é uma calúnia e suas potenciais consequências. A mesma elevação deontológica e rigor jurídico no trato do perigoso Ivo Rosa, alguém que o Mexia afiança que “tende a discordar do Ministério Público” e que “vai querer desfazer coisas feitas por Carlos Alexandre“. Poderia o probo Mexia ter dito que Ivo Rosa tende a defender a Lei com o máximo rigor e que é precisamente por causa disso que tem contrariado certos abusos do Ministério Público, ao contrário de Carlos Alexandre que não só validou todos os abusos dos procuradores como ainda se ofereceu publicamente para os aumentar e agravar? Poderia o honesto Mexia ter dito que Sócrates se manifestou satisfeito não por ter Ivo Rosa como juiz mas por estar, finalmente, sujeito às decisões de um juiz íntegro? Poder podia, como brilhante intelectual que é, mas não seria a mesma coisa – isto é, não seria o assassinato de carácter que executou em público a troco daquilo com que se compram os melões.

João Miguel Tavares, um dos mais notáveis portugueses vivos ou mortos ou por nascer, elevado à categoria de estribeiro-mor do marcelismo como fruto meritório de um talento olímpico para despachar calúnias a troco do belo dinheirinho e à ferocidade canina exibida durante a Grande Guerra Socrática, anunciou à Grei que se está a cagar para o Ivo Rosa, para as provas que o Rosário Teixeira andou com tanto custo a recolher e a inventar, para os tribunais, para o Estado de direito e até para o 10 de Junho. Apenas lhe interessa uma coisa, de resto tão simples que tem toda a razão para estar irritado com a demora: que Sócrates vá para a prisão por uns bons anos, o máximo que der para arranjar; mas sem despertar suspeitas no TEDH, cuidado com isso para não dar chatice. O modo como o seu sonho lindo será realizado é irrelevante, até pedindo para não ser maçado com os pormenores processuais. Esta adorável concepção do Direito, da Justiça e do aparelho de Estado vem de um ilustre “liberal” que tem ubíqua presença na comunicação social e que se concebe como salvador do regime actualmente ameaçado pela democracia e pelo Estado de direito, de caminho ainda conseguindo regenerar a direita portuguesa abraçado ao Rui Ramos e ao Zé Manel. Espíritos curiosos gostariam de conhecer a tradição liberal que defende a ideia de meter na prisão quem não gramamos, ou quem aqueles que nos pagam não gramam, mas não adianta procurar em canhenhos poeirentos. Trata-se de uma tradição original, uma nova filosofia política nascida da inteligência, cultura e decência do notável João Miguel.

Estas Três Graças (ou Três Caretas, na mitologia da Golegã) surgem semanalmente abraçadas e dançarinas na TV e na rádio. Espalham uma harmonia encantadora, desvairadamente popular, borguista. Consiste na propaganda de ser o Artigo 2º da Constituição da República Portuguesa uma aberração que ou está a mais ou tem de levar uma grande volta. E há quem lhes pague, e tanto, para amplificarem os discursos do ódio político e fazerem coro com aqueles que desprezam a liberdade.


Fonte aqui

4 pensamentos sobre “Jurisprudência do “Governo Sombra”

  1. Tancos, um assalto à inteligência
    19 NOVEMBRO 2018 ÀS 19:22 POR VALUPI

    Tancos? A imprensa de referência (ahahahahah!) explica
    11 OUTUBRO 2018 ÀS 12:38 POR VALUPI

    Tancos – uma farsa em vários actos.

    6 OUTUBRO 2018 ÀS 19:41 POR PENÉLOPE

    Tiro ao ministro da Defesa
    4 OUTUBRO 2018 ÀS 16:52 POR VALUPI
    Desde que veio a público a notícia sobre o assalto ao paiol de Tancos que se lançou uma campanha para abater Azeredo Lopes. Primeiro, os editorais e colunistas da bronquite crónica berravam contra a ausência de bandidos pendurados em árvores nos dias, semanas e meses imediatamente a seguir. A culpa, garantiam, era do ministro da … Continuar a ler

    És tão bronco, Monteiro
    1 AGOSTO 2018 ÀS 19:36 POR VALUPI

    https://aspirinab.com/?s=azeredo , link para os interessados, incomodados ou malaicos.

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    Nota. És tão bronco e desonesto, Valulupizinho.

    O ex-ministro da Defesa Azeredo Lopes foi constituído arguido no âmbito do processo do furto das armas de Tancos, pelo crime de denegação de justiça. O governante já veio contestar este passo da Justiça: “é absolutamente inexplicável”.

    Azeredo Lopes foi presente a um juiz nesta quinta-feira, na qualidade de arguido não detido. Ficou com a proibição de contactar com os 22 outros arguidos deste caso. Este processo que envolve o antigo governante visa apenas a encenação da descoberta do armamento e não o furto – que corre num outro processo paralelo.

    No JN, online.

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