Chico Buarque ensinou o quê?

(Pedro Tadeu, in Diário de Notícias, 22/05/2019)

Chico Buarque

Quando recebi no telemóvel o alerta “Chico Buarque ganha o Prémio Camões” senti-me no direito de comemorar uma vitória: “ganhei eu, caramba, ganhei eu!”.

Fui ler a notícia. Os seis membros do júri explicavam a razão desta atribuição do galardão literário pela “contribuição para a formação cultural de diferentes gerações em todos os países onde se fala a língua portuguesa”.

E o que é que este português, de 55 anos, que escreve estas linhas, aprendeu com Chico Buarque?

Aos cinco anos de idade o meu corpo saltitava sempre que no rádio grande do meu pai soava “A Banda”, a música que, quando passava, diz o verso final do refrão, ia “cantando coisas de amor”. Chico Buarque impulsionou-me a dança.

Aos 10 anos de idade percebi como um indivíduo sozinho nada pode contra o cerco violento da indiferença. Bastou-me ouvir a história circular do operário de “Construção”, que “morreu na contramão atrapalhando o sábado”. Chico Buarque ensinou-me a identificar a injustiça social.

Aos 11 anos de idade percebi a inutilidade da divindade quando o coro masculino MPB4 repetia, em Partido Alto, “Diz que Deus dará/ Não vou duvidar, ô nega/E se Deus não dá?/Como é que vai ficar, ô nega?”. Chico Buarque deu-me razões para ser ateu.

Aos 12 anos de idade intui, com os versos de Fado Tropical, como a brutalidade da colonização sangrou a pele dos povos e como as cicatrizes prevalecentes demoram séculos a fechar: “E o rio Amazonas/Que corre Trás-os-montes/E numa pororoca/Desagua no Tejo/Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal/Ainda vai tornar-se um Império Colonial”. Chico Buarque ofereceu-me uma identidade, um medo e uma esperança na Lusofonia.

Aos 13 anos de idade percebi, pela letra do pseudónimo Julinho da Adelaide (um autor inventado, usado para ludibriar a censura da ditadura brasileira, que até falsas entrevistas deu aos jornais…), que confiar na polícia pode ser perigoso, como constata “Acorda amor”: “Tem gente já no vão de escada/Fazendo confusão, que aflição/São os homens/E eu aqui parado de pijama/Eu não gosto de passar vexame/Chame, chame, chame, chame o ladrão, chame o ladrão”. Com Chico Buarque descobri que, às vezes, está tudo certo se se ficar do lado errado.

Aos 14 anos de idade conspirei o sentido da canção “O que será (à flor da pele)”: “Será, que será?/O que não tem decência nem nunca terá/O que não tem censura nem nunca terá/O que não faz sentido…” Chico Buarque revelou-me o secreto significado da palavra “liberdade”.

Aos 15 anos de idade compreendi, ao ouvir “Mulheres de Atenas”, que a minha mãe, a minha irmã e a minha namorada viviam num mundo pior do que o meu: “Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas/Geram pro seus maridos os novos filhos de Atenas/Elas não têm gosto ou vontade/Nem defeito nem qualidade/Têm medo apenas”. Chico Buarque justificou-me o feminismo.

Aos 16 anos de idade espantei-me com o atrevimento de “O Meu Amor”. “Eu sou sua menina, viu?/E ele é o meu rapaz/Meu corpo é testemunha/Do bem que ele me faz”. Chico Buarque fez-me entender como o sexo pode, ou não, fazer um par com a palavra afeto.

Aos 17 anos comovi-me com “Geni”, a prostituta que salva a cidade mas que a cidade despreza: “Joga pedra na Geni!/Joga bosta na Geni!/Ela é feita pra apanhar!/Ela é boa de cuspir!/Ela dá pra qualquer um/Maldita Geni!”. Chico Buarque confrontou-me com a dignidade dos indignos.

Aos 18 anos de idade a história de “O Malandro” exemplificou-me como é sempre o mexilhão que se lixa: um tipo que foge de um tasco sem pagar a cachaça que bebeu provoca uma crise mundial. Mas, no final das crises, há sempre um bode expiatório: “O garçom vê/Um malandro/Sai gritando/Pega ladrão/E o malandro/Autuado/É julgado e condenado culpado/Pela situação”. Chico Buarque antecipou-me a globalização e fez de mim um comunista.

Aqueles anos foram os tempos do meu caminho até à chegada à idade adulta, uma época anterior aos romances que Chico Buarque escreveu e que completam, com a verdadeira poesia de muitas das suas canções, um currículo mais do que suficiente para a atribuição do mais importante prémio literário em Língua Portuguesa.

Aqueles anos foram os tempos que moldaram o meu carácter.

Aqueles foram os tempos que moldaram o carácter de tantos outros e de tantas outras que, como eu, cresceram a ouvir estas canções mas que entenderam nelas tantas coisas que eu não entendi, que compreenderam nelas tantas coisas que eu não percebi, que tiraram conclusões destes textos muito diferentes das que eu tirei.

Mas, tenho a certeza, apesar de pensarem e sentirem de maneiras tão diferentes da minha, ontem, milhões de vós, ao saberem da notícia do Prémio Camões atribuído a Chico Buarque, tiveram o mesmo impulso que eu e comemoram: “ganhei eu, caramba, ganhei eu!”.


Ouça para recordar….
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3 pensamentos sobre “Chico Buarque ensinou o quê?

  1. Foi uma delícia ler o seu texto..
    Saramago num dos seus cadernos falava da vaidade deste
    cantautor… Do seu desejo de ser tratado como um ‘reizinho’…
    Acima de tudo, há que estar na moda…
    seguir as tendências…
    Tudo bom
    ~~~

  2. o Ditos veio aqui parar por acaso (reenvio de replicações por correio electrónico) e por curiosidade: a repetição referia a publicação do texto no “DN” mas sem a respectiva ligação, vulgo “link” e importava saber se também o blog replicado era replicador e tinha o mesmo desplante, agora confirmado

    ora, o texto em apreço já tinha sido lido, quando foi publicado, na página do Diário de Notícias na internet, aberta aos leitores mas gerando um tráfego em função das consultas, partilhas e reacções diversas, através das diferentes aplicações das redes digitais – ora, esse tráfego, mensurável e auditável, constitui um indicador base para o modelo de negócio do jornal, à semelhança do que acontece com muitos órgãos de comunicação social e aplicações ou plataformas das redes digitais, como os blogues, incluindo este sob comentário

    o que agora interessa é ter a consciência de que se alguém for buscar um escrito ou seja o que for a bolso alheio, toda a gente percebe de pronto a usurpação: há furto; e se for para fazer negócio com o produto furtado, a censura ainda é mais evidente, impõe-se, de notória e por forte impressão; mas indo buscar o mesmo escrito ou seja o que for a página ou plataforma digital alheia, afinal um bolso electrónico, além de muitos não descortinarem razão de reprovação de tal conduta, ainda se tornam alegres coniventes e vá de reproduzir ilicitamente a reprodução ilícita, fingindo não perceber a falta de ética de tal procedimento e fazendo vista grossa aos prejuízos causados a terceiros, os detentores dos direitos e toda a respectiva cadeia de valor

    numa amostragem muitíssimo reduzida, neste relance, as publicações deste blog são essencial e maioritariamente (ao Ditos calhou 4 em 4, aleatoriamente, quer dizer, esta publicação e 3 recentes) foram reproduções de conteúdos alheios, do que se viu sem um comentário, análise ou crítica nem indicação da ligação utilizada para os retirar da página a que pertencem, ou seja, o leitor não é reencaminhado para a página de quem tem o trabalho, a inteligência e os custos para realizar o sobredito conteúdo, por essa via privando audiência(cliques, partilhas, reacções, etc.) e receitas aos produtores e detentores legítimos, evidentemente necessárias para contratar, manter e pagar ordenados a jornalistas e outros profissionais, enfim para remunerar o trabalho, a criatividade e o talento de quem produz o conteúdo aqui apropriado, bem como para recompensar o investimento e amortizar os diferentes custos, como as instalações, máquinas, equipamentos, software e tudo mais que não cai do céu, incluindo os direitos de autor e serviços de agência que aos órgãos de comunicação social sérios são inevitavelmente cobrados

    mas atenção, ainda que o plágio ou reprodução não seja (não é preciso confirmar, aceita-se que o não seja) a totalidade da actividade da jametinhasDita “estátua”, certo que faz negócio disso, em publicidade (audiência) e outras receitas, nomeadamente através de uma “ajuda” pedida aos leitores do sal alheio

    safa!..

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