Diz que é uma espécie de “frente progressista”

(Francisco Louçã, in Expresso Diário, 21/05/2019)

Francisco Louçã

(Mas que grande imbróglio. Há dois Costas, o Costa cá dentro para consumo interno e o Costa lá fora, para consumo externo?! Fico na dúvida: qual deles é o Mr. Hyde e qual deles é o Dr. Jekyll? 🙂

Comentário da Estátua, 21/05/2019)


Se procurar na comunicação social portuguesa, dificilmente encontrará uma referência à “frente progressista” que Costa terá proposto a Macron para o próximo Parlamento Europeu. Não deixa de ser surpreendente. Os arautos do “nós somos Europa” escondem meticulosamente este imbróglio de alianças com que dividem a sua própria família política e que os parece levar para terra incógnita. As eleições devem ser um “referendo” ao Governo, resume Carlos César, mas apresentar aos crédulos eleitores um plano para a União Europeia, isso já parece estar fora de cogitação pelos seus mais ardentes defensores. Mas olhe que merecia.

Uma recente insinuação pública sobre esta “frente” terá sido a mensagem que o primeiro-ministro português enviou a um comício eleitoral do partido de Macron, em que sugere que “as forças progressistas (se) devem unir para permitir a mudança necessária”. Qual mudança, isso logo se verá. A fórmula até poderia ser interpretada como um rendilhado diplomático mas, interrogado sobre o assunto, Costa enviou à Lusa uma nota em que explica que, no seu entender, “a Europa precisa de uma grande frente progressista” e está “empenhado em ajudar a construir as pontes necessárias”. O encontro desta segunda-feira entre Macron e Costa em Paris confirma este vaivém para uma prometida convergência. Tudo desejos e boas intenções?

Ao contrário da discrição com que o assunto é tratado neste cantinho à beira-mar plantado, a imprensa francesa diz que a preparação do casamento já vai em juras solenes e aliança no dedo. Garance Pineau, um dos chefes do empreendimento de Macron, diplomata e responsável pelas consultas com outros partidos, veio a Lisboa e registou que o PS está “muito interessado” na “frente”. As mensagens emitidas do Largo do Rato confirmam-no. O Partido Socialista Europeu esclareceu seraficamente que “não está incomodado” com esta iniciativa. Ela parece ambiciosa, pretendendo juntar alguns dos socialistas (que tinham 185 deputados, mas estão em perda) com os eleitos de Macron e dos partidos seus aliados (ninguém sabe quantos serão), que por sua vez prometeram integrar uma aliança com os liberais (atualmente 69 deputados) para enfrentar a direita europeia do PPE (que tem agora 216 deputados, mas divididos entre os merkelianos e a extrema-direita do Grupo de Visegrado).

Ora, o projeto é duvidoso pelo menos por três razões. A primeira é que se trata em todo o caso de uma inversão de rumo, pois implicaria que Macron e Costa procurassem vencer o PPE de Merkel e deixassem de buscar a sua complacência para entendimentos do dia a dia. Havendo uma coligação governamental na Alemanha entre a CDU e os social-democratas, esse putativo afastamento parece atrevimento. A segunda é que chamar a isto “frente progressista” é uma bizarria. Os liberais, que já assinaram com Macron um protocolo que curiosamente declarava que pretende “romper com o bipartidismo” europeu entre os socialistas e a direita merkeliana, são conduzidos por Mark Rutte, o primeiro-ministro, e representam o tradicional programa neoliberal da direita. Seria mais fácil vê-los numa associação com Passos Coelho do que com Costa, pelo que chamar a isto “progressista” é em qualquer caso um floreado extravagante. A terceira razão é que esta frente divide os socialistas. Estes já foram destroçados em França pelo sucesso inicial de Macron e pode até admitir-se que Costa despreze os seus camaradas locais. Mas em Espanha isto é um problema, porque Macron se aliou ao Ciudadanos, e não vejo como possa haver um grupo europeu que tenha simultaneamente o PSOE, que está no Governo, e esse partido de direita, na oposição, sendo, por sua vez, aliado da extrema-direita na Andaluzia. É uma salganhada impossível, o que significa que, se Macron leva os seus, o PSOE fica de fora.

Assim, a “frente progressista” pode vir a ser uma frente (juntando partidos tão diferentes mas afastando uma parte dos socialistas), mas duvido que seja progressista (os liberais defenderam arduamente sanções contra Portugal e é de esperar que voltem a fazer o mesmo na primeira oportunidade) e, sobretudo, que configure uma alternativa razoável para a União Europeia. A não ser que o programa neoliberal à Rutte e Macron seja o novo oásis. Só que isso não se pode dizer em Portugal, pois não? Alguém se poderia lembrar de perguntar se esta aliança em Bruxelas não é o contrário do que promete o Governo em Lisboa, que por isso mesmo quer ser plebiscitado no meio da santa ignorância sobre estas aventuras casamenteiras. Entretanto, em Portugal o PS continua a repetir a promessa de um “novo contrato social europeu”. Mas isso vai ser com os liberais? Será que houve milagre da reconfiguração das almas e Macron deixou de ser o presidente dos milionários, Renzi o homem do ataque à segurança social, Rivera o nacionalista espanholista e Rutte o arauto dos mercados?

Como dizia Tyrion Lannister no último episódio do “Game of Thrones”, “não há nada no mundo mais poderoso do que uma boa história. Nada a pode travar. Nenhum inimigo a pode vencer”.

A questão é que, neste caso, a história da “frente progressista” não é boa, não é nova e nem sequer sei se chega a ser uma história, pois já aterra com um cadastro demasiado pesado. Talvez seja simplesmente a prova da incoerência dos seus inventores, reduzidos à manobra por falta de um projeto apresentável. Por alguma razão a escondem meticulosamente dos eleitores.


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8 pensamentos sobre “Diz que é uma espécie de “frente progressista”

  1. Este Rabaça já está apanhado ao estilo dos “engraçadistas” que pululam por cá para fazer rir o pagode com piadas e anedotas de trocadilhos sobre pornografia sexual.
    Ele que foi ideólogo e obreiro da aliança mais inimaginável, pulha e suja contra o seu próprio país e o povo, no caso do PEC IV, tem o desplante de perante um já à vista avanço da extrema-direita europeia, vir fazer “engraçadismo” com a tentativa de se querer organizar uma “frente democrática” que combata e vença outra frente também em montagem segundo ideologia e princípios fascistas.
    O académico ideólogo do Bloco não saberá, ou já se esqueceu, que o PC alemão ao não votar ao lado dos partidos democratas no Bundestag fez eleger Hitler como chefe do governo?
    E que ele, por cá, com a sua santa aliança negra, fez eleger Passos Coelho e o povo carregar com o “brutal aumento de impostos” decididos por outro Rabaça “engraçadista” autor da piada; “das três palavras (não há dinheiro) qual é a que o snr, ministro (e o povo) não percebeu?.
    Depois da merda feita fugiu para o paraíso do FMI tal como o de cá se refugiou na Escola primeiro e agora faz biscates bem pagos de “engraçadismo” na “sic” do mano Costa.

    • E se não fosse o radical FDR e o fdp do Estaline ainda andava meia Europa a falar Alemão depois do centro respnsável aceitar a anexação da Áustria e da Polónia.
      De volta a este século, o PEC IV é tão diferente da ideologia do PS que este reverteu logo tudo o que foi além da troika nos últimos anos. /s

  2. Para o Paulo Marques restaurar, também ele, a memória.

    O Pacto Molotov–Ribbentrop, também conhecido como Pacto Nazi–Soviético,[1] Pacto de Não Agressão Germano–Soviético[2][3] ou Pacto de Não Agressão Germano Nazi-Soviético[4][5][6] (oficialmente: Tratado de Não Agressão entre a Alemanha e a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas),[nota 1] foi um pacto de neutralidade entre a Alemanha Nazi e a União Soviética assinado em Moscovo em 23 de Agosto de 1939 pelos ministros dos Negócios Estrangeiros Joachim von Ribbentrop e Vyacheslav Molotov, respectivamente.[8] A este pacto seguiu-se o Acordo Comercial Germano-Soviético em Fevereiro de 1940.

    O pacto estabelecia esferas de influência entre as duas potências, confirmadas pelo protocolo suplementar do Tratado da Fronteira Germano–Soviético alterado depois da invasão conjunta da Polónia. O pacto manteve-se em vigor durante dois anos, até ao dia do ataque da Alemanha às posições soviéticas na Polónia Oriental durante a Operação Barbarossa em 22 de Junho de 1941.[2]

    O que não disseram e esconderam mas constava do “Pacto” era a divisão da Polónia pelos dois países autores e assinantes do pacto.

    • Lá por ser de esquerda e recordar que a Rússia foi quem mais sangrou e quem mais fez para derrotar o Reich não tenho que defender o estalinismo, nem esse tem nada a ver com propostas para o país.
      Mas o que nunca ninguém diz é que França e o RU ficaram a assobiar para o lado durante um mês enquanto a Polónia esperava por um flanqueamento que a aliviasse, e para o lado assobiaram quando os primeiros relatos dos campos surgiram.
      O que vale é que aqueles que hoje seriam políticos radicais irresponsáveis (FDR e De Gaulle) tinham mais juízo.

      • E, claro, sem falar no centrismo responsável que concordou não só com Versailles, mas com a militarização do Reno, o Anchluss e a anexação da Checo-eslováquia, um pouco à moda da criação de vassalos alemães na Grécia e Portugal para que a Alemanha exporte.

  3. Desculpe mas é-me muito confuso o seu pensamento tão inadequado acerca dos acontecimentos da guerra 1939-1945. Sobre um acontecimento daquela dimensão perpretada desde, podemos claramente dizê-lo, desde a criação do partido nazi também este já nascido de uma ideia de desforra da guerra 14/18 na qual participara o “cabo” Hitler, tente fundamentar com dados do género:

    “Mas o que nunca ninguém diz é que França e o RU ficaram a assobiar para o lado durante um mês enquanto a Polónia esperava por um flanqueamento que a aliviasse, e para o lado assobiaram quando os primeiros relatos dos campos surgiram.”

    Então os Aliados declararam guerra precisamente perante a invasão e anexação da Polónia pelos dos pactuantes e ao fim de menos de um mês já tinham de ter um exército poderoso a combater num flanqueamento e na própria Polónia acabada de ocupar por dois exércitos gigantesco embalados, assim sem mais.
    E se os aliados ficaram a assobiar para o lado o que esteve a fazer URSS durante dois anos (2 anos 2) até ao dia quando o “cabo” alemão resolveu atacar o amigo de pacto?
    Também não sabe, pois não! esteve, descarada e sorridentemente, a ver o “cabo” alemão a limpar europeus e a ocupar todo o espaço europeu.
    O caro anda a ler histórias da carochinha.

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