Paulo Rangel leitor de Hobbes

(Por Valupi, in Blog Aspirina B, 14/05/2019)

Paulo Rangel

“Nós não queremos mais ‘Berardos’ em Portugal”, defendeu Paulo Rangel, num comício em Santa Maria da Feira (Aveiro), em que defendeu a importância da reforma da união bancária e da união económica e monetária na União Europeia.

Na sua intervenção, Paulo Rangel afirmou que personalidades como o comendador Joe Berardo existiram em Portugal “para que a Caixa Geral de Depósitos assaltasse o BCP, e a Caixa e o BCP ficassem nas mãos de gente próxima do governo socialista de José Sócrates”.

“É que Berardo não caiu do céu, Joe Berardo não é uma invenção de si próprio. É uma invenção de uma conjuntura político-económica em que havia um governo que queria controlar a banca e o usou a ele”, acusou.

“Agora dizem que é um produto tóxico, mas quando foi instrumental para tomar conta do BCP, o produto não era tóxico. Estava muito bem e nessa altura estavam ministros que ainda hoje estão no Governo de António Costa”, acrescentou. Ver fonte aqui


Paulo Rangel é um importantíssimo quadro do PSD. Foi escolhido por Rui Rio para ser o cabeça de lista às eleições Europeias. Portanto, o conteúdo e o estilo da campanha de Rangel tem a aprovação de Rio. Ora, o conteúdo são calúnias e o estilo é a diabolização. Logo, não há qualquer diferença no PSD quando comparamos as lideranças de Rio, Passos, Ferreira Leite e Santana. Todos utilizaram a baixa política, a chicana, como matéria e técnica de propaganda. Há muitas e fortíssimas razões para ser assim.

Paulo Rangel declara que um número indeterminado de administradores e gestores bancários conspirou, em conluio com um número indeterminado de governantes, para que se fizesse um “assalto” a um certo banco, entre outras malfeitorias, e tem a certeza de que o discurso será reproduzido e amplificado na comunicação social durante horas e dias. Provas? Nenhuma de nenhuma, obviamente. Nos impérios mediáticos da direita as declarações são alvo de uma prioridade e destaque editorial que lhes conferem alcance máximo dentro dos meios respectivos. As mensagens não são criticadas nem enquadradas pelas redacções que as exploram, antes ficam publicadas como se fossem factual, legal e moralmente legítimas. Institui-se que “fazer política” é caluniar.

Desde que nasceu a democracia na Grécia clássica que ela fez nascer os caluniadores. A pulsão para destruir a credibilidade e honra de um adversário político através de suspeições e mentiras é antropologicamente inevitável, psicologicamente provável e historicamente universal. Está longe de ser um exclusivo da direita, mas é à direita que a vocação para a pulhice encontra características axiológicas e cognitivas mais propícias à caudalosa prática dos assassinatos de carácter e das campanhas negras. Os estudos mostram como os direitolas são mais individualistas e por isso mais cagarolas, o que os leva para uma leitura fulanizada das disputas políticas. Adoram ditadores, daí projectarem nos adversários o reverso do que lhes dá segurança.

Ingenuamente, durante anos, estranhei que o PCP e o BE não agarrassem no tema da corrupção e dele fizessem bandeiras estratégicas para os seus posicionamentos tácticos e disputas eleitorais. Parecia-me que na Soeiro Pereira Gomes, dada a organização e recursos humanos do partido, haveria excelentes condições para instituir grupos de investigação permanentes para denunciar – com fundamento na realidade – os supostos inúmeros casos de corrupção gerados pelo imperialismo capitalista. Foi a custo que percebi o meu erro. Para comunistas e bloquistas não faria sentido prestar esse serviço à cidade pois tal implicaria aceitar que o modelo do Estado de direito democrático (portanto, a democracia liberal), assim como a evolução do texto constitucional, estava ideologicamente de acordo com a ambição totalitária que anima a identidade da esquerda à esquerda do PS. Nada mais ao contrário, afinal, pois o liberalismo constitucional causa alergia aos sectários. Pelo que a retórica comunista prefere os tropos conservadores (nacionalismo embrulhado em “patriotismo” e metido no caixote do “povo”) e a retórica bloquista prefere os tropos dos costumes (uma moralização maniqueísta a partir das desigualdades económicas e sociais). Ambos recolhem de Marx a visão estrutural da sociedade, tendo aí o repositório hermenêutico donde sacam os conceitos e o léxico para intervir politicamente. Olham para a corrupção com desinteresse, mesmo bonomia, não gastando uma caloria com o assunto pois não querem lutar pelo actual regime. Isto de irem a votos num regime estruturalmente corrupto antes da revolução é apenas para fazer tempo, suportarem a estadia no Egipto enquanto fazem as malas para atravessar o Mar Vermelho.

Acontece haver valor informativo nas calúnias de Paulo Rangel e dessa mole de políticos e jornalistas para quem a política só se concebe como interminável guerra civil. Eles deturpam a realidade e omitem dados que contradizem tudo o que bolçam. No caso da atoarda sobre a tentativa de controlo do BCP pelo Governo de Sócrates a partir da CGD, Rangel nada diz acerca desta maravilhosa evidência: o PSD controlava administrativamente a Caixa ao tempo (leia-se: em todos os tempos, foi sempre assim com maioria de administradores de direita sobre os do PS). Donde, a fazer fé nas suas palavras, a falange laranja e do CDS na CGD queria dar a Sócrates o controlo do BCP. Faz isto algum sentido? Não tem de fazer e, acima e antes de tudo, não deve fazer. É preciso que não faça sentido para fazer efeito dado que a audiência em causa para este linchamento é não só acrítica como acéfala. O mesmo para a ideia de que o Governo de Sócrates conseguiria “controlar” o BCP, e daí retirar qualquer vantagem política. Como? Para quê? Com que consequências? Nada se explica, se justifica, sequer se esboça porque estamos num processo de diabolização. O Diabo é poderoso precisamente porque fica como mistério insondável ele ter autorização de Deus para fazer o mal. Este o quadro de irracionalidade usado à doida na política por canalhas para atiçar a turbamulta a partir do medo e do ódio. Noutros tempos, essa mesmíssima dinâmica levou ao assassinato de mulheres às mãos da multidão, ao assassinato de vizinhos nas fogueiras, ao assassinato de judeus em câmaras de gás. A lógica assassina, em todos os tempos e lugares onde a civilização ainda não nasceu ou foi expulsa, foi sempre a diabolização que serve as pulsões de poder absoluto dos algozes e tiranos – ou a loucura violenta dos animalescos cérebros humanos.

Paulo Rangel que assassinar alguém? Aposto os 10 euros que tenho no bolso, mais os 5 que guardo debaixo do colchão, como nem sequer será capaz de fazer mal a uma mosca. Ele é um magnífico cidadão cumpridor dos seus deveres e um exemplo a merecer condecorações pela sua entrega à vida pública. Não, claro que não, que estupidez. Ele não quer matar ninguém e está cheio de amigos, quiçá familiares, no PS. Ele apenas pretende acordar o assassino que, como leitor de Hobbes, sabe existir dentro de cada um. E cravar-lhe um voto.


Fonte aqui

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4 pensamentos sobre “Paulo Rangel leitor de Hobbes

  1. Resumo: calúnia ao meu pobre e humilde partido? Não passa. Entretanto, tomem lá meia dúzia a quem não concorda com o meu clube. Bem, a quase todos, ninguém quer saber da agricultora.

  2. […]

    «O negócio da Fundação Berardo foi inconcebível, relembre-se. Num processo em que se envolveu directamente o primeiro-ministro Sócrates, o Estado português albergou na Fundação do CCB a famosa colecção do Sr. Joe Berardo, uma figura que, em Portugal, passa estranhamente por “empresário”, a troco de condições ruinosas para o interesse público. Muita gente protestou na altura. O Presidente da República promulgou contrariado, tornando públicas as suas objecções (e vê-se agora como tinha razão). O deputado João Semedo, do Bloco, chegou a classificar o negócio como um “mecenato ao contrário”: era o Estado que financiava a fundação de Berardo e não o “benemérito” que nos oferecia a sua filantropia.

    – Pedro Lomba, 2011.

    «A negociação para a colocação da colecção Berardo no Centro Cultural de Belém estava favorável e mediaticamente condicionada para o lado do comendador. O Portugal lustrado tremia de pavor com as ameaças do comendador em colocar a colecção no estrangeiro. A ministra da Cultura em funções, Isabel Pires de Lima, desconfiava que essas propostas eram fogo de artificio do comendador para impor a sua vontade. Ainda recentemente reafirmou que “estava totalmente tranquila, que ela ficaria em Portugal”, ao contrário do primeiro-ministro José Sócrates, assessorado por Alexandre Melo que segurava o telefone para a verruma da voz de Berardo contar ao nosso primeiro os seus sonhos de mil e uma noites sem verão nos intervalos das noites de verão ocupadas na colecta de maravedis no sobe e desce bolsista. Na comunicação social retiniam os alarmes referindo as propostas para instalação da colecção no estrangeiro que enchiam a caixa de correio do comendador. Por mais que vasculhassem não encontravam agulha no palheiro. Por mais que fossem referidas as tais propostas concretas nenhuma foi de facto descoberta. Só intenções, mas de intenções, boas e más, está o inferno cheio. Prevaleceu a vontade de Sócrates sobre as dúvidas e as questões que Pires de Lima, a saloia, a estúpida, Berardo dixit, colocava no caminho imperial de ocupação total dos espaços exposicionais do CCB e mais umas quantas exigências que deram ao Museu Colecção Berardo um lugar de excepcionalidade no panorama nacional. Com o andar da carruagem muita gente se chegava à frente para ocupar um lugar na mesa daquele festim. Entre os variegados episódios registe-se o interpretado por Melo a bater tambores em vários jornais, rádios e televisões fazendo soar que, pelo seu passado de colaborador do comendador, seria natural vir a ocupar lugar de relevo na futura Fundação. Não percebia que no pequeno-almoço de Berardo havia muitos melos, pelo que lhe era mais útil ter um melo telefonista de serviço no gabinete do primeiro-ministro que dois melos pousados noutras cadeiras.

    Instalada a colecção, Berardo não contente com as condições leoninas alcançadas, faz novas exigências à administração do CCB, ao que parece completamente marginalizada nas negociações, até Mega Ferreira ficar tão encostado à parede que se demitiu de presidente do Conselho de Fundadores da Fundação de Arte Moderna e Contemporânea-Colecção Berardo (FAMC). Sempre rápido Berardo disparou no seu estilo habitual: se ele não está satisfeito, que arranje outro lugar para trabalhar.

    Berardo tinha o mundo a seus pés por via de um protocolo em que tinha ganho tudo e mais alguma coisa. Ocupava todo o espaço do CCB que ficou a suportar os custos logísticos e de manutenção da colecção.»

    – Manuel Augusto Araujo, 2017.

    «Sabemos agora, passados mais de 20 anos, que foram os portugueses, entretanto, que emprestaram cerca de mil milhões de euros (cem euros, cada português) ao empresário. Muitíssimo mais do que vale a colecção, quando for convertido o seu valor simbólico em valor real. Sabendo tudo isto, conhecendo bem a história, entramos no Museu — Colecção Berardo e o que vemos, obstinadamente, não é arte, mas activos financeiros. E activos financeiros dos quais somos investidores involuntários. Vemos então, em exposição, uma parafernália financeira, à espera de ser convertida em dinheiro para pagar dívidas ou iludir os credores que, apesar do nome, não crêem naquilo que jamais entenderão. E se entendessem exprimiriam certamente uma enorme impaciência perante as manobras deste coleccionador que quis, à escala portuguesa, ser o representante de uma plutocracia mundial que faz da arte contemporânea um laboratório de formas de criação de valor. Num momento em que o devir especulativo estava acelerado, aquela colecção exibia a solidariedade que a arte estabelece com o dinheiro e o “novo capitalismo”. Ao contrário das trocas comerciais tradicionais — em relação às quais as obras de arte ocupavam um lugar marginal, inscrevendo-se num regime particular do valor —, as economias neo-liberais integraram a arte nos mecanismos do mercado como um factor de investimento e especulação, uma das principais formas de investimento e de mais-valia, de circulação do dinheiro e de valores-refúgio.»

    – António Guerreiro, 2019.

    «É que Berardo não caiu do céu, Joe Berardo não é uma invenção de si próprio. É uma invenção de uma conjuntura político-económica em que havia um governo que queria controlar a banca e o usou a ele.”

    – Paulo Rangel, 2019.

    “Zzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz, Berarquem?”

    – Valulupi, 2019.

    Nota. Sabe-se que, para quem vive rodeado de fantasmagorias e de cadávares, é difícil esta coisa simples de dialogar com os outros… né?

    • O Nó da questão. Na mouche.
      No Circo S. Bento, 230 impávidos mandarins, não viam, não ouviam, não falavam.
      Com 230 macacos, faziam como o cavalheiro de Boliqueme, que não lia jornais?
      Demasiado ocupados para pensar?
      Mas fazem Comissões de Inquérito,
      Proactividade desta algo podre Dinamarclusa.
      Ou Tuga.
      A bem do Regime.

    • Notas, prévias.

      Estes tipos e tu falam do quê exactamente, Valulupizinho?
      Dragões, telecinética, telepatia, subornos?

      _____

      A primeira-ministra da Nova Zelândia, Jacinda Ardern, devolveu um “suborno” de uma menina de 11 anos que lhe escreveu a pedir que o seu Governo fizesse investigação sobre dragões. Victoria queria receber poderes telecinéticos para se poder tornar uma treinadora de dragões, tendo incluído na carta cinco dólares neozelandeses (menos de três euros).

      Na resposta, enviada em papel timbrado oficial, Ardern esclareceu que a sua administração não se encontrava a desenvolver qualquer trabalho na área. No entanto, numa nota manuscrita, acrescentou: “P.S. Vou ficar atenta a esses dragões. Eles usam fatos?”.

      Na missiva, Ardern agradece a Victoria por ter entrado em contacto. “Ouvimos com muito interesse as tuas sugestões sobre videntes e dragões, mas infelizmente não estamos a desenvolver qualquer trabalho em nenhuma dessas áreas. Por isso, devolvo o teu dinheiro de suborno e desejo-te tudo de melhor na tua busca por telecinética, telepatia e dragões”, juntou.

      No Expresso online, ontem.

      Adenda. Saibam quantos, alguém sabe?

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