Uma segunda Geringonça, será possível?

(Joaquim Vassalo Abreu, 10/05/2019)

Os doutos e predestinados pensadores do Eixo do Mal, que além disso são também infalíveis antecipadores de tudo, pois tudo sabem e tudo antecipam, acham que não!

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Ao contrário destes e de muitos outros ilustres “pensadores” que certidão de óbito já lhe passaram, este recente reposicionamento do PCP no caso dos Profs e o seu distanciamento em relação a Mário Nogueira vem indicar-me que o meu pensamento estava e está correcto: recuaram porque finalmente perceberam que o Povo não estava a achar piada nenhuma ao caso e inclinou-se maioritariamente para o apoio à posição do PS e do Governo.

Outro dado que transparece é o de que a Geringonça tem também maioritário apoio à Esquerda, e mesmo um crescente apoio ao Centro, e será penalizado à esquerda quem a inviabilizar. E daí que o espectro de uma maioria absoluta do PS esteja a fazer tremer os seguríssimos PC e BE! Estarei eu equivocado?

Está a acabar uma Legislatura, aproximam-se novas eleições e desta Legislatura, para além de muitos outros aspectos positivos, ficou o quebrar de dois tabus há muito consolidados no nosso País, deixando tudo de ser o que era.

Um, o de que seria impossível formar um governo de coligação exclusivamente à Esquerda. Foi possível fazê-lo e de um modo assaz particular: na base de alguns pressupostos mínimos, deixando de lado as questões de foro mais ideológico e outras de fundo que separam os Partidos da Esquerda parlamentar, foi possível formar um Governo que favorecesse uma governação progressista e séria, para além de corrigir muitos dos malefícios do anterior.

Mas o outro tabu desfeito, e isso teria que ser provado durante a Legislatura, foi o de que a Esquerda não sabia governar porque era por natureza despesista e tinha fobia ao rigor. Assim a ela se referiam os comentadores e pensadores da nossa praça! E além de um tabu também um mito que urgia ser desfeito e o foi à saciedade.

Este Governo demonstrou que a Esquerda, com os seus insuspeitos princípios éticos, os seus propósitos sociais, a sua profunda interligação com a sociedade e a sua permanente procura da justiça e da equidade, não só sabe governar de um modo progressista como o faz com todo o rigor!

E esse rigor com o equilíbrio das contas públicas, do défice, da dívida e com tudo o que implique o onerar do futuro que a Direita tinha como prerrogativa apenas sua, lançando sempre sobre a Esquerda o anátema do seu contrário, era sempre obtido por essa mesma Direita com o prejuízo dos mais fracos e consequente favorecimento dos mais fortes. Também aqui este Governo de Esquerda provou o seu contrário.

Este Governo provou à saciedade, como disse, todo o seu contrário e, por ter conseguido os resultados de uma governação jamais vistos neste Pais, afirmou-se como o melhor Governo da nossa Democracia e António Costa, um político hábil e firme, derrubou de uma só penada esses dois tabus e mitos há muito sedimentados. Para além de também ter “curado” os Partidos mais à esquerda daquela doença “sarnenta” que os impedia de fazer parte do arco da governação e ter trazido maior dignidade às vidas dos Portugueses. E em total lealdade para com os seus parceiros.

No entanto a vida partidária tem as suas próprias idiossincrasias e, enquanto se postula serem os Partidos essenciais à Democracia e aos Países, por acolherem em seu seio e ao seu redor diferentes sensibilidades da sociedade, eles vão-se cansando de querer provar na prática e no dia a dia que continuam a ser mais importantes as coisas que os separam do que aquelas que os unem e, essencialmente, a definição daquilo que importa mais ao País, isto é, a todos, muito embora na Geringonça as poucas coisas que os uniam tivessem sido suficientes para um entendimento.

Seria, portanto, da mais elementar lógica que, no fim de uma legislatura bem sucedida, os Partidos que compuseram a sua maioria, se sentassem e discutissem as bases programáticas de um novo entendimento, tendo em conta o sucesso do anterior que cumpriu todos os requisitos anteriormente enunciados.

Mas não! Em nome não sei bem de quê, entraram numa guerrilha de cálculos tacticos, acusando-se mutuamente de traições e coisas afins, de responsáveis pelo fim desta experiência, como se esta viesse a terminar apenas por divergências não programadas ( Professores) e não pelo terminus formal, o tempo e novas eleições…e isto é, para mim, incompreensível.

E eu desejo aqui reafirmar e vincar a minha posição, uma posição que mesmo sendo baseada em princípios ideológicos gerais que não podem ser outra coisa senão de Esquerda, não está afecta ou comprometida com nenhum Partido de Esquerda em particular, pois em todos eles me identifico com algo. Eis o que de cada um hoje penso:

No BE com muito pouco me identifico pois as suas principais bandeiras foram tomadas e legisladas pelo PS e não me agrada uma certa frívola irresponsabilidade que é desenhada em capas bonitas mas com um discurso errático e, muitas vezes, sem qualquer exequibilidade. E também o considero um certo “ albergue espanhol” .

No PCP, para além do imenso respeito que pelo Partido tenho, e por alguma razão foi de longe o que em mais vezes votei, tenho absoluta admiração pelo seu pundonor e espírito de luta, pelo seu passado e pela sua resistência e resiliência, pelo seu espírito de renovação de quadros e pela sua firmeza. Pela confiança que sempre nele tive e continuo a ter e pela sua incorruptibilidade, coisa que elejo da maior importância. Não me agrada o seu demasiado calculismo, o tender a estar sempre contra o poder, qualquer poder e o abstrair-se da governação, como que não tivéssemos que ser governados. E por um certo retorno a um “ quanto pior melhor” que, isso sim, em qualquer um abomino.

No PS em quem nas ultimas eleições votei e do qual me aproximei mais agora com a Geringonça, admiro a qualidade de alguns governantes e quadros, em particular António Costa, admiro a sua moderação e a sua abertura à sociedade, uma certa transversalidade e, também agora, o seu sentido de responsabilidade na governação do Pais. E, ainda, a sua postura firme perante a Direita e perante a Europa.

Porque temos que ser governados! E como quem governar tem que o fazer para todos, indistintamente das suas posturas políticas e ideológicas, isso pressupõe termos que colocar de lado coisas que para nós serão sempre essenciais e se manterão como nossos objectivos prioritários, por face às contingências não serem exequíveis, em troca de tudo o o que de positivo alcançar for possível!

PS – Não deixa de ser irónico que, depois de no início da Legislatura, a Direita ter acusado o Tiago Brandão Rodrigues de “lacaio” do Nogueira, ou o seu alter ego também diziam, tentando assim menorizá-lo afirmando não perceber ele nada de política, isto é, não ter tirado o curso em universidades de verão e jotas, ser agora essa mesma Direita, quem está efectivamente refém desse “artista”!

As voltas que a vida dá…

8 pensamentos sobre “Uma segunda Geringonça, será possível?

  1. Quando chegar a crise, mas daquelas que causam despedimentos e falências, não a farsa do mês, pode ser que os vassalos percebam o quanto vale o “progressismo” moderado. Ou não, haverá sempre quem clame pelo PEC V até as infraestruturas caírem, a floresta arder dia sim dia sim e estar tudo vendido a saldo.

      • Não é uma questão de saudades, é uma questão de inevitabilidades, que o fim da história afinal está por escrever.
        Havendo uma crise, estando tudo aos mesmos níveis de dívida privada de 2007, existindo menos estabilizadores automáticos, descendo as exportações (acima de tudo o turismo) e não havendo anéis, acha que o dinheiro para o mítico pacto de estabilidade vai vir de onde?

      • Uns dizem que Sócrates criou a crise mundial, outros dizem que Costa a resolveu. Isto é que são homens poderosos.
        Entretanto, partes de Porto e Lisboa parecem Detroit, mas é uma questão de responsabilidade.

  2. Escreveria letra por letra, palavra por palavra, todo este texto, assim me o permitisse o engenho e a arte da escrita. Finalmente alguém parece ter entrado no meu pensamento traduzindo o
    que penso. Um retrato de cada um dos partido que compõem a geringonca, que considero fiel. O que em cada um há de certo e de errado, e o que é preciso corrigir para que uma governação que correu bem, não se desfaça com loucuras de última hora, como que um regresso aos tempos em que se dizia ser o PCP incapaz de viabilizar um governo porque na sua génise fora talhado para ser sempre do contra. Um BE que quebrou tabus ao aceitar ser parte da geringonça, mas que à última hora não resistiu e quis mostrar a sua velha marca de partido do protesto.
    Encontraram por parte de grande parte dos cidadãos uma reacção que talvez não esperassem e isso fê-los descer das nuvens e cair no real.
    Um António Costa que continua hábil mas que soube ser firme na hora certa.
    Também sou de esquerda e votei muitas mais vezes no PCP que no PS, mas não deixo de reconhecer que agora esteve mal, ao ter em sua mente não um País inteiro, mas apenas uma classe.
    Deixem-se de loucuras e continuem a mostrar que um antigo arco da governação não
    é exclusivo e pode ser ultrapassado na sua teimosa mania de só nele haver a arte da governação

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