Montenegro: nunca farei a Rio o que Costa fez a Seguro

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 11/01/2019)

Daniel

Daniel Oliveira

É injusto dizer que Luís Montenegro começou a preparar este mês a revolta contra Rui Rio. É injusto dizer que o anterior líder parlamentar do PSD se indignou com o facto de Manuela Ferreira Leite ter dito que prefere um PSD com menos votos a um PSD de direita. É a enésima vez que o diz. É injusto dizer que está agora a preparar-se para concorrer contra Rui Rio. Luís Montenegro decidiu que queria ser presidente do PSD no dia em que Passos Coelho abandonou a liderança. A partir daí foi tática.

Estou convencido, mas nisto posso estar enganado, que Montenegro estava a pensar avançar depois das legislativas. Só que fez as contas, olhou para as sondagens, e percebeu que teria de gerir uma travessia do deserto que, no PSD, é de morte quase certa. Deixou que Santana servisse de barriga de aluguer da ala passista, a quem faltava um único corajoso para dar o corpo às balas, previu as dificuldades de Rio e esperou. Esperou por o que sabia que ia acontecer: com um Governo popular e a economia de feição, a derrota do PSD nas eleições seguintes seria mais do que certa.

Mas este grupo não se limitou a esperar. No último ano, todos assistimos a um boicote e uma sabotagem da liderança do partido. Ao ponto de denunciarem irregularidades de deputados que andaram a esconder nos anos em que estes ocupavam cargos no anterior Governo – foi o caso do currículo de Barreiras Duarte. Montenegro não saiu do Parlamento para estar mais com a sua família, saiu para deixar passar um ano de desgaste, contribuir para esse desgaste e assim garantir um resultado muitíssimo mau para o partido e avançar depois. Só que o trabalho foi tão bem feito, e Rio ajudou tanto, que nem sequer foi preciso esperar pelas eleições. Nada disto é propriamente novo. Mas a verdade é que Montenegro não teve coragem de concorrer há um ano, preferindo desgastar a liderança para ter um caminho mais seguro.

Quando se foi embora do Parlamento, Luís Montenegro disse: “Eu nunca farei a Rui Rio o que António Costa fez a António José Seguro”. De facto, não esperou por um mau resultado eleitoral, as suas tropas não deram uma semana de sossego ao líder eleito e não criou uma crise interna a um ano e meio das eleições, fê-lo a cinco meses. Ao pé de Montenegro, Costa é um menino

Porque não espera Luís Montenegro pelas derrotas de Rui Rio e se poupa a si mesmo ao papel de derrotado? Porque a grande questão que move a bancada do PSD não é se o partido vira à direita ou à esquerda, se ajuda o PS a governar ou faz uma oposição mais clara, se se mantém no bloco central ou se se transforma definitivamente numa seita radical. Isso são coisas nossas, que andamos aqui entretidos a discutir política. O que move aqueles homens e aquelas mulheres são os lugares no Parlamento. E, vendo bem as coisas, Montenegro não tem nada a perder. Se conseguir afastar Rio e perder as eleições seguintes sabe que ninguém lhe vai cobrar nada. A culpa será de Rio, mas a lista a deputados será dele. Montenegro concorre para isso: para segurar lugares. Porque se Rio continuar a ser líder sem uma bancada quase inteira contra ele, a sabotagem deixaria de ser possível e o líder do PSD até poderia conseguir, mesmo com a sua falta de jeito, impor-se.

A situação do PSD foi resumida por Montenegro quando, numa entrevista à Antena 1, em fevereiro de 2012, disse: “Percebo que dentro do Partido Socialista há muitas pressões sobre a liderança fruto de alguns complexos e até algum ressabiamento de alguns governantes (…) Tem sido público e notório que há uma pressão sobre a liderança do PS, quase que dizendo ‘têm de ser mais agressivos, têm que ser mais contra este Governo, porque este Governo está a fazer tudo diferente do que nós fizemos’”.

Quando se foi embora do Parlamento, Luís Montenegro disse: “Eu nunca farei a Rui Rio o que António Costa fez a António José Seguro”. De facto, não esperou por um mau resultado eleitoral, bastaram-lhe as más sondagens. Não esperou três anos, ficou-se pelo primeiro. As suas tropas não deram uma semana de sossego ao líder eleito, começaram a destruição da direção ainda antes da tomada de posse. Não criou uma crise interna a mais de um ano das eleições, fê-lo a cinco meses, quando o PSD já deveria entrar em pré-campanha, assumindo que se não conseguir reconquistar o partido esta fação pretende destrui-lo. Ao pé de Montenegro, Costa é um menino.

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