Última hora: se combatermos a pobreza, a pobreza diminui

(Marco Capitão Ferreira, in Expresso Diário, 05/12/2018)

capitaoferreira

Num desenvolvimento que deve deixar de cara à banda boa parte da intelligentsia nacional o INE publicou, há dias, o Inquérito às Condições de Vida e Rendimento, realizado em 2018 sobre rendimentos do ano anterior.

Daqui resulta que 17,3% das pessoas estavam em risco de pobreza em 2017, menos 1% que em 2016, menos 1,7% do que em 2016 e menos 2,2% do que em 2014, no pico da crise. São números que vão na direção certa, mas que não deixam de ser preocupantes.

A explicação mais óbvia vem do crescimento económico: o desemprego é um fator preponderante no risco de pobreza, e menos desempregados significam menos pessoas em risco de pobreza.

Mas não vem só daí, vem também de um outro fator, poucas vezes valorizado: este é o valor depois das transferências sociais.

Antes das transferências sociais esse valor é, para 2018, de 43,7%, menos uns impressionantes 4,1% do que em 2013, no pico da crise.

Deixemos por um instante a constatação – arrepiante – que sem mecanismos de proteção social praticamente metade da população estaria em risco de pobreza (e é mesmo de pobreza que se fala aqui, a taxa de risco de pobreza correspondia, em 2017, à proporção de habitantes com rendimentos monetários líquidos inferiores a 468 euros por mês) e olhemos para o papel das políticas sociais na correção deste risco.

Parece que, oh espanto, repor pensões e prestações sociais reduz a pobreza e cortar pensões e prestações sociais aumenta a pobreza. Estou chocado, juro.

Sem Estado Social teríamos muito mais pobres, muito menos capacidade de distribuir rendimentos, criar riqueza e empregos, e tão pouco poderíamos esperar viver na relativa paz social que nos habituámos a ter por garantida.

Sem Estado Social teríamos não quase 2 milhões de portugueses em risco de pobreza, mas quase 5 milhões de portugueses em risco de pobreza permanente.

Quer ajudar a reduzir a pobreza? Pague os seus impostos. Contribua para o contrato social com a sua parte. Bate qualquer outro método.

Incluindo a caridadezinha de que tantos vivem. Sim, o Banco Alimentar gasta 300.000 euros ano em ordenados, para não falar noutras despesas que pouco têm a ver com o apoio a famílias necessitadas, e eu por mim tenho dificuldade em compreender isso.

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6 pensamentos sobre “Última hora: se combatermos a pobreza, a pobreza diminui

  1. Caro Marco Capitão Ferreira,
    Essa do Baco Alimentar Contra a Fome, até dá a ideia, do modo como o escreve, que é a Jonet que gasta do seu bolso os 300.000 euros por ano.
    Mas, nestas coisas, é preciso que falemos mais claro e mais alto, porque as pessoas que mais caem no conto do vigário, acham que o banco Alimentar, é mesmo da Jonet, e que pratica caridade. E, não é verdade e nós sabemos disso!
    Tem que haver alguém nos média, que ajude a acabar com essa farsa fascista, como a Cáritas, a UNISEF e outras que tais!!!!

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  2. Chega a ser repugnante a forma como alguns continuam a brincar aos pobrezinhos em Portugal. A novidade este ano foram as criancinhas. Ironia das ironias, nas superfícies que mais mal fazem ao país.

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    • Sugiro visita à instituição. Urgente e desassombrada. Donativos são donativos. Dá quem quer e pode. No local, verão como sem donativos monetários não há donativos alimentares q resistam em condições dignas das famílias a quem se destinam. A questão dos impostos e da pobreza é uma falsa questão uma vez q os números são inversamente proporcionais. Sugiro pois, ver antes de maldizer, questão de bom senso!

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  3. A primeira questão que se deverá colocar talvez seja a de perguntarmos como distinguir o social do que embora seja tomado como tal o não é de facto. Muitas das prestações, sob a forma de subsidios e outros, tomados como prestações sociais familiares existindo controlo digno desse nome, essas sim, poderiam ajudar uma parte substantiva da população, essa de facto em risco de pobreza, em vez de alimentarem falsos pobres que além de se deslocarem de Mercedes BMW e Autos, apresentam outros tipos de ostentação e até integração social duvidosa. Por outro lado, há organizações ditas sociais para as quais um breve olhar mais sério e menos tolerante , nos diria que o objeto da sua função , se esgota numa caridadezinha para fora pouco compatível com o estatuto doses seus dirigentes. São muitos milhões do erário público, cada vez mais à serem questionadas. Restará por isso afinar políticas sociais (tal como outras, as de justiça, saúde e educação) porque só assim se poderá diminuir a pobreza endêmica de que o país sofre, tal como o exasperante aumento do fardo que, dia após dia, e o aumento de situações parasitárias, quer sob a forma de falsos pobres, quer de instituições de faz- de- conta.

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