O ukase sobre “Os Maias”

(José Rentes de Carvalho, in Expresso Diário, 19/07/2018)

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Uma notícia com mais de uma década tornou-se de repente facto aparentemente fresco: “Os Maias” deixaram de ser leitura obrigatória no secundário, escreveu a imprensa esta semana. As redes sociais viram, insurgiram-se e questionaram: como é possível tamanha afronta ao Eça, que indignidade é esta? Mas, na verdade, há mais de uma década que assim é: trata-se de facto verdadeiro em 2018 mas também em 2017 e assim anteriormente. Por isso, há aqui matéria para muitos anos de indignação, motivo que nos leva a J. Rentes de Carvalho: a pedido do Expresso, o escritor explica a falta que uns “Maias” obrigatórios fazem ao país – sobretudo aos mangas-de-alpaca.


O que vem logo ao pensamento ao receber a notícia de que “Os Maias” deixa ser leitura obrigatória no secundário é investigar a árvore genealógica dos néscios que tomaram essa decisão, porque de certeza há entre eles descendentes em linha directa do Conde Abranhos ou daqueles políticos que no fino retrato que Eça de Queirós deles fez se destacavam por terem ”uma grande cabeça” e dormirem durante as sessões parlamentares.

Por má sorte, não é a dormir que estes cavalheiros andam, antes parece que bem acordados levam a sério as suas fantasias, imaginando que a sociedade para ser moderna de verdade deve ser psicadélica, que os jovens cidadãos só encontrarão felicidade e êxito na vida se se mantiverem no rebanho dos semianalfabetos, dóceis e manipuláveis como crianças do infantário.

Na óptica dessas “grandes cabeças” a leitura de “Os Maias” e obras de igual “dificuldade” é uma inútil sobrecarga para a massa cinzenta de uma juventude que, como estímulo intelectual, não precisa mais do que os desafios do Facebook e os êxitos dos influencers no Instagram.

Pobre juventude, infelizes os pais e os educadores que inutilmente se esforçam por lutar contra a poderosa corrente da parvoíce, pois dominante como já é na sociedade, bem se dispensava vê-la também abençoada pelos que governam, e levanta sérias dúvida sobre o desenvolvimento cerebral e as capacidades intelectuais dos mesmos.

Não é porque a Eça de Queirós devo muito e sei o seu valor que me põe de avesso o ukase dos senhores da Educação, mas porque o considero um crime. Qualquer português adulto, em seu juízo e um mínimo de escolaridade, sabe que Eça de Queirós é mais que um nome, uma estátua ou uma placa de rua.

Eça de Queirós Foto D.R.

Eça de Queirós FOTO D.R.

O seu nome ficou, ficará, enquanto dos mangas-de-alpaca que depois do seu falecimento o foram achincalhando, porque o temiam e achavam venenosa a sua ironia, não sabemos o nome de nenhum, nem lhes conhecemos a cara, destino que terão estes de agora, a quem talvez incomode menos a cansaço de ler “Os Maias” do que dar à juventude a perigosa oportunidade de descobrir o terrorista social que escreveu “As Farpas”.

Fossem eles cidadãos conscientes e políticos de verdade interessados no progresso do país, não se entreteriam na busca de “facilidades” e exigências mínimas para o ensino da juventude, seria sua obrigação elevar a craveira, exigir excelência. Todavia o mais certo, porque disso dão mostra, é que eles próprios de Eça de Queirós e do pouco que leram nada aprenderam, nem se deram conta de estarem lá fiel e finamente retratados.

Grande mal é ser a luta inglória, cansativa, de todos os tempos, e resultar sempre como Schiller (1759-1805) nos avisou, de que “Contra a ignorância até os deuses lutam em vão”.

Infelizmente, também não é item que prometa êxito se levado ao Facebook, pelo que a nós, os de boa vontade, cientes do valor da obra do “pobre homem da Póvoa de Varzim”, resta-nos fazer trabalho de missão: convencer os que o ignoram que a obra de Eça de Queirós nos dá um genial retrato do país que éramos, fomos, continuamos a ser, mas onde para mal de todos nós os mangas-de-alpaca só conhecem uma velocidade: a marcha atrás.


(J. Rentes de Carvalho escreve de acordo com a antiga ortografia)

Quem vai escrever o guião à esquerda?

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 19/07/2018)

Daniel

Daniel Oliveira

Acabei o texto da edição semanal do Expresso, que dediquei às declarações de Augusto Santos Silva sobre uma possível reedição da geringonça, dizendo que não tinha razões para pensar que elas resultavam apenas de uma vontade de um ministro que nunca mostrou qualquer entusiasmo com os entendimentos à esquerda. Santos Silva não é apenas o número dois do Governo, é do núcleo duro de António Costa. E é evidente que as posições do primeiro-ministro se têm aproximado cada vez mais das suas e das de Mário Centeno. Usando os termos românticos do debate sobre o estado da Nação, quanto mais nos aproximamos das eleições menos o primeiro-ministro tem a geringonça no seu coração e na sua cabeça.

A minha tese é a de que estamos perante a velha rábula do polícia mau e do polícia bom. António Costa não veio desmentir Santos Silva, veio cumprir o seu papel. Esta minha convicção foi, aliás, confirmada pelo texto publicado aqui no Expresso, por Ângela Silva. Costa estará concentrado na aprovação do Orçamento do Estado de 2019, arrefecendo a conflitualidade na geringonça. Santos Silva, que o “Sol” dá como provável cabeça de lista às europeias (estranharia se se confirmasse), está a preparar o terreno para a estratégia eleitoral do PS pós-Orçamento: dramatização, para que se crie um ambiente em que a reedição das alianças à esquerda pareça cada vez mais improvável aos eleitores, tentando assim fazer renascer o voto útil para uma maioria absoluta.

Como escrevi no texto de sábado, não há nenhuma hipótese de PS chegar a acordo em matéria europeia com PCP e BE. E ainda bem. Se Bloco e PCP se rendessem ao euroconformismo do PS isso abriria espaço para o crescimento de forças eurocéticas à direita. Em vez da critica democrática à agenda antissocial e neoliberal que domina Bruxelas passaríamos a ter espaço para a crítica nacionalista de direita. O justificadíssimo euroceticismo da esquerda é o melhor antídoto contra o crescimento de movimentos antieuropeístas de contornos xenófobos.

Estamos perante a velha rábula do polícia mau e do polícia bom. Costa está concentrado na aprovação do Orçamento do Estado, Santos Silva está a preparar o terreno eleitoral: dramatização, para que se crie um ambiente em que a reedição das alianças à esquerda pareça cada vez mais improvável aos eleitores, tentando fazer renascer o voto útil para uma maioria absoluta

Sendo bastante relevantes para decisões estratégicas – o PS está totalmente limitado na sua agenda social-democrata pela ortodoxia monetarista da Comissão Europeia e do BCE – não me parece que tenham sido as divergências em matérias europeias a estar no centro das recentes crises políticas à esquerda. Os quatro grandes temas de confronto foram a violação pelo Governo dos acordos com Bloco sobre precariedade (o que levou a ser o PSD a viabilizar as leis de trabalho), o fim do adicional ao imposto sobre combustíveis, o descongelamento da carreira dos professores e a entrega da Lei de Bases da Saúde a Maria de Belém Roseira, que propõe uma maior privatização do sistema. Se no primeiro caso a pressão europeia poderia ter alguma relevância, em todos os restantes não há qualquer relação com ela. Não é por causa das profundas divergências quer têm sobre a Europa que PS, BE e PCP se têm desentendido. Santos Silva não foi, por isso, empurrado pelas circunstâncias para fazer esta declaração. Elas tinham o objetivo de sublinhar a impossibilidade de repetir esta experiência.

O sucesso desta perigosa estratégia depende, acima de tudo, dos partidos mais à esquerda. Se seguirem esta coreografia do desentendimento crescente (como parece ser o caso do PCP), o PS poderá tentar capitalizar para reeditar o voto útil. Não será fácil, porque Rui Rio não é Passos Coelho, mas pode ter, em eleitorado que não quer ver o PS dependente do PSD, algum resultado. Se responder o que respondeu o Bloco, deixando sempre claro que a não reedição da geringonça terá de ser uma escolha expressa do PS, apenas dará razões aos eleitores que gostaram desta solução para garantirem que o PS não tem maioria absoluta e é de novo obrigado a conversar com os partidos mais à esquerda.

Antes das legislativas vêm as europeias e é de prever que o PS aproveite esse momento para explorar as diferenças quando elas serão mais evidentes. BE e PCP podem usá-las para refrear o excesso de autoconfiança dos socialistas. Tudo depende de quem conseguir escrever o guião.

Vamos pagar 4 mil milhões por ano à NATO?

(Pedro Tadeu, in Diário de Notícias, 18/07/2018)

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(Este texto fez-me lembrar “A Guerra dos Mundos”, transmissão radiofónica de Orson Welles em 1938, em que fazia a reportagem da chegada dos marcianos. Ficou todo o mundo em pânico. 

Estamos num país de patetas. Todos patetas. Governo, oposição, Presidência da República. Todos se calam e dizem que vão pagar para que o Trump os defenda. Afinal, os defenda de quem? Dos marcianos, pois claro. Tal como em 1938, eles vêm aí… 🙂

Comentário da Estátua, 18/07/2018)

Quando saiu da reunião da NATO, dominada pela exigência do presidente dos Estados Unidos da América aos outros países membros de chegarem a um valor de despesa com a defesa de 2% do PIB, (e, a médio prazo, de fazerem subir esse valor para 4%), o primeiro-ministro português explicou que o seu governo entregara uma proposta para satisfazer essa pretensão, dependente da obtenção de fundos comunitários e presumindo o investimento dessas quantias em áreas benéficas para a economia nacional.

Nem esses tais fundos estão garantidos, como o próprio António Costa admitiu, nem, digo eu, a política de aquisição de armamentos de Portugal é hoje em dia autónoma e verdadeiramente soberana, pois tem de se subordinar a opções estratégicas da NATO.

Sim, terá lógica reforçar meios para proteger os recursos marítimos portugueses mas, até por força da impetuosidade atual da gerência norte-americana, basta uma qualquer guinada política de Donald Trump para esse objetivo deixar de estar acertado com quem manda, obediente ao poder de Washington, na NATO. Nessa circunstância será duvidoso que tal ilusão portuguesa possa ser uma realidade.

Talvez o comando da NATO ache hoje em dia ser boa ideia os portugueses comprarem mais aviões KC390 mas se, no futuro, passar a dar parecer negativo a essa aquisição, duvido que uma compra dessas se realize.

Temos um pais que paga 7 ou 8 mil milhões de euros anuais em juros por dever ao estrangeiro 178 mil milhões, que soma um total de dívida pública acima de 250 mil milhões, (mais de 125% do PIB); que está, por compromissos externos, obrigado a limitar a nove mil milhões de euros a despesa com o Serviço Nacional de Saúde e a sete mil milhões o custo da educação pública.

Temos um país nesta situação, sem uma solução de rotura com tal status quo. Isto deveria suscitar uma discussão séria sobre se vale a pena passar o custo militar dos atuais mil e 800 milhões de euros para 4 mil milhões, aparentemente só para calar a boca ao senhor Donald Trump.

Mas não, não vejo textos, nem opiniões nem reparos críticos, pelo contrário. Até o líder da oposição, Rui Rio, foi lesto em dar a mão ao governo nesta questão, concordando muito rapidamente em aumentar a contribuição do país para a NATO… mas ninguém quer mesmo discutir isto? Está tudo de acordo com este aumento de despesa?!

Acho mesmo muito estranha a leveza com que se admite a possibilidade de aumentar, permanentemente, a despesa militar portuguesa em 700, 800, mil milhões, dois mil milhões de euros por ano, até chegar a um total de 4 mil milhões(e não fechar a porta à duplicação desse valor) quando as paixões se inflamam em cegueira fanática no debate sobre aumentos, muito inferiores, nas despesas com a saúde, o ensino ou a segurança social… E nem quero falar do dinheiro dos contribuintes que se perdeu e se perde com bancos falidos.

Só penso nos coitados dos professores, dos médicos e dos enfermeiros que aturam insultos sempre que levantam a cabeça a pedir coisas tão básicas como condições de trabalho decentes, carreiras normalizadas ou contratação de pessoal para responder de forma eficiente ao serviço…

E também penso nos militares que, hoje em dia, nem gente suficiente têm para fazer rondas capazes de guardar, por exemplo, o paiol de Tancos e lêem estas notícias, que parecem falar de um país de ficção!

Acontece, porém, que a NATO é liderada por uma potência, os Estados Unidos da América, que, por sua vez, é liderada por um homem que vê inimigos na União Europeia, na Rússia e na China; um homem que abriu uma guerra comercial para mudar o jogo da globalização e que força alterações no equilíbrio geoestratégico capazes de perdurarem muito para além dos seus previsíveis oito anos de mandato.

E, apesar dos países europeus da NATO estarem todos incomodados com Trump, de gastarem, já hoje, mais em defesa do que a Rússia e tanto quanto a China, aceitam a exigência despesista dos Estados Unidos e recusam dizer, claramente, “não”. Porquê?!

Face a esta realidade, gostava de perguntar o seguinte a todos os que acham que a NATO é uma coisa muito cá da casa e que a União Europeia foi o melhor que nos aconteceu na vida: com Donald Trump ao comando, a NATO serve para quê? É para nos defendermos da China? Da Rússia? Dos imigrantes do Mediterrâneo? Do terrorismo moribundo?… ou da União Europeia?!

Vamos mesmo dar a esta confusa NATO do senhor Trump, todos os anos, 4 mil milhões de euros?… Para quê, meu Deus, para quê?!