Israel: um novo Estado racista

(José Pacheco Pereira, in Público, 21/07/2018)

JPP

Pacheco Pereira

Sempre fui amigo de Israel e não só pelas razões que vêm do Holocausto. Era também por outras razões, desde aquelas a que, no tempo da fundação do Estado de Israel, o seu primeiro amigo, a URSS, e o Avante! eram pró-israelitas contra “as monarquias feudais árabes”, até aos eventos mais recentes que colocavam uma pequena democracia armada no meio de inimigos governados por ditaduras, umas mais cruéis do que as outras, mas nenhuma recomendável.

Havia muita coisa que era genética no Estado de Israel, fundado por sionistas que eram na sua maioria socialistas, e que tinham ideias utópicas sobre a sociedade, construíram os kibutz no meio dos desertos, e os políticos não usavam gravatas, eram muitas vezes mulheres de força num oceano de homens por todo o lado, Europa e Oriente, e havia uma pulsão igualitária pouco comum. E era um país eficaz pela necessidade absoluta de estar rodeado de inimigos, ia apanhar nazis na América Latina e julgava-os, tinha os melhores serviços de informação, e um exército de cidadãos comandado pelo mérito que os promovia a oficiais.

Claro que Israel tinha também lados negros igualmente genéticos. Para se constituir como Estado expulsara, com a colaboração de muitos dirigentes árabes que lhe fizeram o jogo criando uma situação de alarme, uma parte da população que vivia em cidades como Jaffa, violou até hoje os termos reconhecidos pela comunidade internacional das suas fronteiras com a instalação de colonatos, tinha no seu seio comunidades judaicas tão fundamentalistas como os seus vizinhos muçulmanos, e, nos últimos anos, recorreu a métodos de terrorismo de Estado em várias terras vizinhas a começar por Gaza. Com a direita no poder e Benjamim Netanyahu tudo se agravou e já estão longe as perspectivas de paz assentes na solução dos dois Estados, que estiveram quase a ser consagradas no tempo de Yasser Arafat. Agora não foi sequer a gota de água, foi uma torrente que se abriu com a nova lei da nacionalidade que institui na prática uma situação de apartheid e de racismo.

Quando se pergunta de onde vem o súbito agravamento da situação internacional em vários focos, no Irão, na Coreia do Norte, no Médio Oriente, a resposta é Trump. Não é o único, mas é o principal. Foi ele que deu carta-branca à monarquia absolutista saudita e a Benjamim Netanyahu, e no dia seguinte, ainda o avião presidencial americano voava de regresso, a Arábia Saudita agravou as hostilidades no Iémen, e voltou-se contra o Qatar, e, em Israel, iniciou-se a mais inútil das escaladas com a deslocação da embaixada americana para Jerusalém em desprezo do direito internacional, e o Exército israelita começou a atirar a matar contra manifestantes em Gaza. Duas cartas-brancas e dois conflitos que imediatamente se agravaram, com Trump a colocar-se do lado sunita de uma velha guerra religiosa e geopolítica contra os xiitas, e a bater palmadinhas nas costas do seu “querido Bibi”, envolvido ele e a sua família em escândalos de dinheiros e benefícios próprios.

Israel era um pólo cosmopolita numa zona do mundo cada vez mais envolvida em ancestrais conflitos de religião e poder, agora tornou-se mais uma nação do Médio Oriente, mais parecida com os seus vizinhos na sua recusa da democracia e do primado da lei. Esta legislação é racista e num país como Israel implica uma nova forma de apartheid, mas é acima de tudo um golpe no que de melhor tinha Israel, que era ser uma democracia num mar de ditaduras. Mais um passo no caminho da crise mundial das democracias.

Resistam ou vão a caminho da servidão, moderna, tecnológica, “social”, branca, bruta e malévola.

A ‘geringonça’ entre Hegel e Coltrane

(Pedro Adão e Silva, in Expresso, 21/07/2018)

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Nas últimas semanas enraizou-se a ideia de que António Costa estava a iniciar um movimento tático em direção ao centro, aumentando a tensão política com os seus parceiros. O acordo na concertação social em torno do Código do Trabalho, viabilizado entretanto no parlamento pelo PSD, e a entrevista do número dois do Governo, Augusto Santos Silva, sugerindo que uma nova ‘geringonça’ dependeria de posições conjuntas na política externa, dariam conta disso.

E se, além da aproximação de um período de tensão pré-eleitoral e pré-orçamental, não existir, ao contrário do sugerido, nenhum elemento de novidade?

Talvez valha a pena regressar à natureza dos compromissos conjuntos: essencialmente circunscritos a matéria orçamental, a ‘geringonça’ optou por deixar de fora muitas áreas. Contudo, a ausência de muitos temas nos acordos não os retirou do programa de Governo. Precisamente por o entendimento em matérias laborais entre PS, PCP e BE ser escasso, os compromissos são praticamente omissos nesta matéria — não tendo ficado, naturalmente, o executivo inibido de legislar ou de promover a concertação social. Bem pelo contrário, as matérias constam do programa de governo.

Há, é verdade, um elemento de importante novidade dos últimos meses. Um congresso do PS que se anunciava anódino acabou por ter uma consequência. Com sagacidade, Pedro Nuno Santos aproveitou o vazio para se afirmar como incontornável num novo ciclo, enfatizando a opção preferencial pela esquerda. Esta tese desencadeou um movimento dialético, com Augusto Santos Silva a apresentar a antítese, sinalizando com “maldade analítica” (para recuperar a certeira expressão de Pacheco Pereira) as dificuldades dessa opção. Esta tensão, enquanto ofereceu a António Costa mais uma oportunidade de promover uma síntese — que na verdade é a que tem vigorado nos últimos dois anos —, criou uma nova grelha de leitura para a tensão política quotidiana.

E é este movimento de matriz hegeliana que me leva a John Coltrane. No que é, provavelmente, o acontecimento musical mais relevante de 2018, foi lançado um álbum perdido do saxofonista, resultante de uma sessão de 1963 com o quarteto clássico. Enfatizo a sugestão e aproveito para recuperar o singular título: “Both Directions at Once”. Num episódio, aliás relatado pelo João Santos revista E da semana passada, em conversa com Wayne Shorter, Coltrane terá apontado à síntese definitiva: um fraseado que começando pelo meio seguisse em duas direções ao mesmo tempo.

É também esta a virtude da síntese de António Costa: manter o vínculo europeu e sustentar um compromisso heterodoxo no parlamento. Uma síntese que tem como principal virtude ir em duas direções ao mesmo tempo, mas que encerra em si a sua principal fragilidade. Como sempre, chegará o momento em que o equilíbrio deixará de ser sustentável, mas é prematuro dar esse momento como próximo.

Esgar de rejeição

(José Sócrates, in Expresso, 21/07/2018)

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No artigo em que anunciou a saída do PS, José Sócrates defendeu Manuel Pinho. Agora, depois da audição parlamentar, volta a socorrer o seu ex-ministro. Neste texto para o Expresso, critica o Parlamento e não poupa Carlos César.


Portanto, dia cheio. Logo pela manhã, procuradores desrespeitam ostensivamente a decisão de um juiz de instrução que decidiu levar a sério a sua condição de juiz dos direitos e não parece disposto a obedecer ao Ministério Público. Depois, à tarde, vemos deputados atrair um cidadão para uma reunião, acordando com ele o tema a discutir e violando a palavra que lhe deram mal começa o debate. À hora de jantar, um líder político resolve expor, resplandecente, a sua política de justiça: se um cidadão reclama o direito a defender-se apenas depois de conhecer a acusação, já nem precisamos de ouvir mais, escusa de cá vir outra vez, o silêncio condena-o imediatamente. À noite, ainda nesse dia, é possível ouvir um líder parlamentar dizer que o convidado, que se limitou a cumprir o que combinou e a aguentar a deslealdade parlamentar, não se sabe comportar com deputados — foi arrogante e incorreto. No dia seguinte, eis o coro que só é possível ouvir quando políticos e jornalistas estão de acordo no alvo — eia, fogo nele. Bravo.

Parece que todos falam nos termos de um prévio acordo, de uma qualquer convenção minuciosamente negociada, de forma a pôr de lado os direitos individuais e a Constituição da República. Seja como for, é só para dizer que estou à margem desse consenso. O que vejo é um Ministério Público que dirige traiçoeiramente imputações contra cidadãos através dos jornais, sem ninguém lhes exigir que provem imediatamente o que afirmam. O que vejo é deputados tornarem-se porta-vozes, não do povo que representam, mas das autoridades judiciais que, através dos jornais, lhes sugerem as perguntas que elas próprias não puderam ou não quiseram fazer. O que vejo é a indecência parlamentar da armadilha política: não só não cumprimos o que combinámos, como te criticamos porque, afinal, sabias bem onde te estavas a meter. O que vejo são lideranças políticas que pretendem fazer do direito constitucional a responder só depois de conhecer a acusação uma velharia jurídica formal, pronta a ser sacrificada perante uma qualquer oportunidade política para atacar um adversário. Há dias em que é realmente difícil olhar o teatro político sem esboçar um esgar de rejeição.