Podemos deixar a CGD em paz?

(Marco Capitão Ferreira, in Expresso Diário, 30/11/2016)

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Era boa ideia, não só porque é o único banco público de raiz (o Estado agora também tem o NovoBanco, os destroços de BES, BANIF e BPN e uns créditos por cobrar ao BPP, mas vamos deixar essas questões de lado por hoje), mas porque é o maior banco do País.

Sim, o banco que integra o sector público, esse repositório de má gestão, se acreditarmos no consenso da intelligentsia nacional em matéria de Economia e Gestão, jornalismo incluído, é o banco de maior sucesso no mercado, onde concorre com todos os outros em condições de igualdade.

Os tempos da CGD banco do Estado e dos funcionários públicos acabou há mais de 20 anos. Para o bem e para o mal, a Caixa tem-se comportado mais como um banco privado igual aos outros do que como o banco público com uma missão específica. Se calhar para o mal, mas já lá vamos.

Depois da desnecessária novela em torno das declarações patrimoniais e de rendimentos da actual administração, da qual resta para a história a medida da sua importância, que é zero, podemos agora parar um instante para discutir o futuro da CGD e dos seus mais de oito mil trabalhadores? Que se ande a discutir o acessório quando o principal é largamente desconhecido diz muito sobre a nossa capacidade colectiva de nos deixarmos distrair.

A recapitalização da CGD negociada em Bruxelas é uma vitória do Governo quanto ao essencial (manter a CGD pública) e uma derrota em quase tudo o resto.

Tivemos de ceder em fazer da CGD um banco mais pequeno – fala-se na saída de até 25% da força de trabalho, um número brutal -, de ceder em qualquer ambição de uma CGD com presença no Mundo (embora a aventura espanhola possa fazer questionar se não é um favor que nos fazem) e, por fim, de ceder no envolvimento de investidores privados na recapitalização do Banco, ainda que sem entrada no capital.

Este último passo será um dos mais difíceis de concretizar, em larga medida graças a decisões do Banco de Portugal a propósito do caso BES. Como explica o FT: “Portuguese lenders have faced difficulties in raising debt since December when the central bank imposed heavy losses on some senior bondholders in Novo Banco, the so-called good bank rescued from the collapse of Banco Espírito Santo. One large institutional investor said there was “no way” CGD could raise €1bn from private investors because Portuguese banks have been effectively shut out of debt markets since the bond controversy at Novo Banco.”.

Sobre isto lemos ou pouco ou nada na imprensa portuguesa. Sobre os custos sociais que poderão resultar do processo de emagrecimento forçado da CGD, idem. Sobre o que significa ter menos Caixa para o País também não.

Sendo público e notório que o pavor deste PSD a tudo o que é público inclui o desejo de privatizar a CGD importa garantir que deste processo de deliberado enfraquecimento da CGD não resulta também o primeiro passo para a sua perda de relevância, o que muito facilitaria a sua futura privatização.

Pessoalmente não acredito que o Banco público seja menos bem gerido que os privados (e o desempenho em termos de malparado diz-nos isso mesmo), mas acredito que tem o potencial de continuar a ser muito útil ao País. Desde logo, se se souber assumir como um banco igual aos outros na qualidade de serviço, eficiência e desempenho mas diferente quanto aos fins que prossegue.

Sabemos, por decisões várias, do BANIF ao BPI, que em Bruxelas e Frankfurt se prefere uma banca portuguesa pequenina, dependente de Espanha, que nos torne ainda mais dependentes na nossa aventura europeia. Que isso aconteça sem que se discutam as consequências, já é culpa nossa.

A CGD tem pela frente uma tarefa gigantesca, de se encolher sem colapsar, de largar gorduras e não músculo, em suma, de se reinventar como Banco, e como Banco público. Como é sabido que muito ajuda quem não atrapalha, António Domingues que faça boa viagem. Temos assuntos mais importantes pela frente.

Uma nota final sobre a gestão política do dossier. Se fosse preciso prova de que uma mesma equipa pode ser capaz do melhor e do pior basta comparar a evolução das contas públicas com a gestão da CGD. Um desastre de proporções épicas. Não há outra forma de o dizer.

Encontre-se rapidamente uma nova equipa de gestão para a CGD, de preferência sem cair na tradicional tentação socialista de nomear pessoas ligadas ao PSD como forma de comprar a paz política e mostrar isenção partidária (já nos chega Santana Lopes na Santa Casa), porque para reinventar o banco público existirão quadros noutras áreas políticas, desde logo a socialista. Convém é que sejam quadros que percebam para que serve um banco público. E não, não é para ser privatizado às pressas.

Por enquanto, e até ver, a CGD é mais importante do que isso. E não falta o que fazer para garantir que assim continua. Também por isso, por favor, deixem a CGD em paz.

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Fillon é a extrema-direita, diz-me hoje um amigo.

(Joseph Praetorius, in Facebook, 29/11/2016)

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Entendo a ideia, mas não. Fillon é apenas o vazio, a falta de critérios, o arbítrio sem freio. Opõe-se ao Socialismo de Direita de Le Pen. É o modo como Le Pen se apresenta, sim. E está errado, também. Le Pen subscreveu o programa económico da esquerda radical – compreendendo as nacionalizações – mas isso não faz dela uma socialista.

É um solidarismo estatista e nacionalista (democrático e republicano à luz da genealogia das ideias, aliás, devendo recordar-se a recusa do – kantiano – “cidadão do mundo” em prol do “cidadão nacional” que a República tão claramente enunciou). Mas é ainda assim a navegação à vista da linha de costa, com todas as degenerescências possíveis e garantida apenas pela fibra pessoal da mulher ao leme que nos promete um maternalismo de mulher com espessura. A “tradição católica” é o arrimo das referências éticas. Era o que nos faltava…
Os franceses estão a gritar pela mãe, bem sei. A miséria infantiliza. E a probabilidade de vitória é, por isso, elevada.
Fillon é um pedaço de plasticina castanha (se acaso não for mais drástico que isso) em mãos nada recomendáveis. Acocorado já diante da nobre Rússia, procura recuar na linha que também ele prosseguiu em seus dias de governo. As mãos que o modelam deram-lhe a forma transitória de uma galinha atingida por um jacto de mangueira. E no plano social tudo aquilo é puro ensejo de vómito. Porque é a miséria. Evidentemente. Quer recuar sessenta anos. Quer, por exemplo, que os sábados de manhã voltem a integrar o horário de trabalho normal. Olho para isto como a massa tumoral de que a estupidez de Balladur foi o primeiro nódulo (foi o primeiro imbecil que se desfez a ideia de França consensual para os franceses).
E enquanto isto, os socialistas de Hollande e Valls mantêm a ditadura policial (stricto sensu) sob o pretexto eternizado do “estado de emergência”. A França já vive sob regime de extrema-direita e estaria condenada à falsa discussão Hollande-Fillon, segundo o regime.
Os franceses responderão em jacquerie eleitoral, plausivelmente. E isso justificar-se-á se daí resultar, como se espera, o encarceramento rápido de Hollande, Fillon e Sarkozy, com a neutralização dos validos respectivos. E será em todo o caso – se assim for – a vitória (transitória) da paz na Europa.
Quanto a tudo o mais, temos bastante trabalho pela frente. De todos os pontos de vista.

marine

10 motivos porque não gosto de Paulo Macedo

(In Blog, O Jumento, 29/11/2016)
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Espero que Paulo Macedo não chegue a presidente da CGD, não me parece que seja a pessoa indicada para o cargo, além de não ter nem o currículo, nem as habilitações ou mesmo a independência para o exercício do cargo. Pessoalmente tenho dez bons motivos para não simpatizar com essa personagem, aliás, além de não simpatizar tenho muito desprezo pela mesma:
1. As habilitações
O percurso académico de Paulo Macedo não está à altura da gestão de uma Caixa Geral de Depósitos, não é uma passagem pela área fiscal e pouco mais que o habilita a administrar um grande banco.
2. Os falsos sucessos
Apesar de, enquanto gestor da DGCI, ter sido um dos beneficiários dos grandes investimentos feitos na informatização da máquina fiscal, beneficiando da gestão dos seus antecessores e dos investimentos que estes mobilizaram, é mentira que Paulo Macedo tenha sido o melhor director-geral dos impostos, dos últimos anos.
Avaliando os resultados dos últimos quatro diretores-gerais, Paulo Macedo ficaria na terceira posição, com piores resultados do que um dos antecessores, o Dr. Nunes dos Reis, e do seu sucessor Prof. Azevedo Pereira. Paulo Macedo só apresentou melhores resultados do que o seu antecessor, um senhor que foi notícia por estar a fazer o doutoramento ao mesmo tempo que desempenhava as funções de diretor-geral.
3. O gestor que nada muda
Tirando uma sessão em que Paulo Macedo pôs todas as chefias da DGCI tocar uma corneta de plástico, nada de significativo deixou, não mudou chefias, não mudou modelos de organização e não mudou modelos de gestão. Aproveitou os resultados e publicitou-os, aproveitando a boa imprensa de alguém que pertencia a uma instituição com um grande orçamento publicitário.
4. O especialista em propaganda
Paulo Macedo transformava diariamente tudo o que a DGCI cobrava em sucessos pessoais, como se no passado nada fosse feito. Para além de contar com uma rede preciosa de amigos, tirava partido da boa imprensa do BCP para fazer passar sucessos atrás de sucessos. Muitas vezes os mesmos resultados eram publicitados na comunicação social apresentados de formas diferentes, para multiplicar o impacto. Os seus anos de DGCI foram uma intoxicação permanente da comunicação social, aliás, vimos o mesmo na saúde nos seus tempos.
5. As ligações à Opus Dei
A confirmar-se a possibilidade de ter ligações à Opus Dei pode questionar-se a isenção na liderança de um banco público. Recorde-se a importância dada por aquela organização à gestão do poder e, em particular, ao poder financeiro, importância que ficou evidente no seu envolvimento com o BCP. A Opus Dei tem grandes interesses económicos e na liderança de muitas instituições empresariais estão homens promovidos por aquela organização religiosa semi-secreta.
6. As ligações à direita
Sem militância conhecida são óbvias as suas relações com o PSD, a cujo governo pertenceu, onde foi um ministro da Saúde que procurou o sucesso com aumentos gratuitos do horário de trabalho e encerramentos de serviços.
7. A proximidade ao homem de Oliveira e Costa
Na DGCI tinha como um dos homens mais próximos um braço direito de Dias Loureiro a quem se juntou para promover a perseguição deste blogue, incomodado por críticas e convencido, ainda que sem qualquer prova ou fundamento, de que aqueles que ele pensava serem autores deste blogue teriam sido responsáveis por violações do sigilo fiscal em relação a factos contributivos da sua responsabilidade.
8 O lado manhoso
Uma pequena história ilustra o lado humano de Paulo Macedo. A determinada altura convidou Jorge Sampaio, então Presidente da República, para estar presente num seminário por ele organizado, certamente para engrandecer a sua imagem junto da comunicação social. Alguém foi perguntar a um ex-diretor-geral se já algum presidente tinha visitado a DGCI. Foi informado que o mesmo Jorge Sampaio havia inaugurado as novas instalações do serviço de finanças de Serpa. O resultado foi um comunicado informando que pela primeira vez um Presidente da República tinha estado presente num seminário da DGCI.
9. O trabalho alheio
Apesar de tantos elogios pelo seu trabalho da sua boca nunca se ouviu a atribuição dos resultados aos esforços de alguns, muitos poucos. Em vez disso, optou por agradecer a Deus e promoveu uma missa de acção de graças, nas Sé de Lisboa, para que os funcionários pudessem agradecer a Deus pelos resultados. Digamos que os funcionários da DGCI e principalmente os que contribuíram para os seus inúmeros comunicados de imprensa, ficaram com a bênção do padre, Paulo Macedo ficou com a fama e o proveito.
10. As perseguições
A crer nas noticias que foram publicadas na comunicação social as perseguições atrás referidas chegaram ao ponto da IGF ter vasculhado os e-mails de todos os funcionários em busca de e-mails trocados entre funcionários e jornalistas. Nunca se soube o que fez Paulo Macedo aos resultados dessas investigações.

O país está a assistir a um forte campanha para colocar Paulo Macedo na CGD, como se este fosse a última Coca-Cola do deserto. Quem estará por detrás desta campanha, o próprio Paulo Macedo ou outros interesses apostados em tomar conta da CGD?