LE MOT JUSTE

(Ana Cristina Leonardo, in Expresso, 29/08/2015)

Ana Cristina Leonardo

                Ana Cristina Leonardo

Uma coisa é saber uma coisa, outra coisa é saber o nome dessa coisa. A frase, no original, “I learned very early the difference between knowing the name of something and knowing something” é do Nobel da Física Richard Feynman, uma das personagens mais estimáveis do século XX. De facto — e o exemplo continua a ser do próprio —, podemos saber o nome de um determinado pássaro em todas as línguas do mundo e, ainda assim, não sabermos nada sobre ele. No contexto, Feynman referia-se a processos de aprendizagem. Em “1984”, de George Orwell, o contexto é político e a língua, ou a novilíngua em construção, atira-se aos significados, subvertendo-os, e ao léxico, reduzindo-o. O objetivo é moldar o pensamento (e a realidade) a uma grelha de sentido unívoco, libertando-o de escolhas polissémicas. Já muitos se referiram ao modo como hoje em dia o empobrecimento vocabular, a literalidade interpretativa ou os modismos redutores sugerem uma espécie de novilíngua insidiosa, e contagiosa, que vai tentando adequar o real a um modelo único e conformista. O desaparecimento de palavras como ‘patrão’ ou ‘trabalhador’, o novo significado, por exemplo, de ‘trabalho não remunerado’, que passou a ‘oportunidade’, o termo ‘mercados’, que é dito e escrito à exaustão sem que ninguém saiba com rigor o que significa, os ‘doentes’, que passaram a ‘utentes’, quando não a ‘clientes’, o ‘empobrecimento’, que passou a ‘ajustamento’… E, se quisermos continuar com Orwell e avançar até ao doublethink, que melhores vocábulos do que ‘parcerias público-privadas’, em que os riscos ficam por conta do público e os lucros são privados, ou ‘dívida soberana’, uma contradição óbvia nos termos? Estamos muito longe do mundo real a que se referia Feynman, antes atolados no delírio humano puro e duro. Um exemplo esclarecedor de manipulação da linguagem está a acontecer agora, neste preciso momento, na Europa, 2015. Pois eis senão quando aos que atravessam o Mediterrâneo para o lado de cá (aquele de onde escrevo) se deixou de chamar ‘refugiados’ e se passou a chamar ‘migrantes’.

Refugiado é uma palavra com conotação dramática evidente, por vezes trágica, que em migrante se dilui quase por completo. Refugiado lembra a responsabilidade ocidental no caos, migrante quase só parece da família de ‘piegas’. E de repente ocorre-me “A Trégua”, de Primo Levi, e pergunto-me: trégua é o intervalo entre guerras?

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O rearranjo da esquerda

(Daniel Oliveira, in Expresso, 29/08/2015)

         Daniel Oliveira

                     Daniel Oliveira

A vitória do Syriza não foi apenas um epifenómeno grego. Foi um sinal. Também o foram a sua derrota perante Berlim e Bruxelas e sua divisão interna, que deu origem a um novo partido, mas que permitirá a Tsipras ocupar definitivamente o espaço do PASOK. Bem ou mal, a reconfiguração da esquerda grega desilude quem acreditava que estaríamos a assistir à sua radicalização. Na Europa, se isso está a acontecer é à direita, com a sua divisão em dois campos radicais: o ultraliberal, quase revolucionário, e o xenófobo, com uma agenda contra a modernidade. Dois campos que, em determinados contextos, até se podem aliar. Foi o que aconteceu na Finlândia, em que liberais, conservadores e nacionalistas, liderados por um milionário, começaram o processo de desmantelamento do exemplar Estado social do país.

A esquerda não se está a radicalizar, está a reconfigurar-se. O “modelo social europeu” foi abandonado pelos partidos socialistas e sociais-democratas, que aceitaram o fundamental das chamadas “reformas estruturais” para a desregulação e privatização das funções do Estado. Como a política tem horror ao vazio, esse espaço com um forte apoio social está a ser reocupado.

Na Grécia, por um Syriza em transfiguração. Em Espanha, através do aparecimento do Podemos. É verdade que caiu nas sondagens depois do que aconteceu com Tsipras e que não tem sido fácil gerir o seu discurso dúbio em relação a fenómenos como o do nacionalismo catalão, que vai a votos a 27 de setembro. Mas a vitória das listas de cidadãos que patrocinou em Barcelona e em Madrid e as alianças locais com o PSOE tornaram o movimento incontornável para um futuro governo à esquerda. O rearranjo do sistema partidário à esquerda por essa Europa fora não acontecerá apenas através do aparecimento de novas forças ou do crescimento e moderação de forças já existentes na esquerda radical. Ele pode resultar de revoluções internas dentro dos próprios partidos do centro-esquerda. A possibilidade de uma vitória de Jeremy Corbyn, socialista de todos os costados, na corrida interna à liderança dos trabalhistas britânicos está a deixar nervoso o establishment da decadência ideológica do partido e pode vir a ser tão ou mais relevante do que os resultados do Podemos ou do Syriza.

O Estado social português foi construído poucos anos antes de começar a ser posto em causa na Europa através de um acordo entre um PS sem implantação sindical e um PSD impossível de caracterizar ideologicamente. Tudo aqui é diferente e os efeitos do que está a acontecer na Europa vão demorar a sentir-se. Mas o espaço que, por cá, foi deixado vago pelo PS e em parte pelo PSD terá, também ele, de ser ocupado. Até porque a defesa do Estado social tem, ainda mais em Portugal, uma vocação claramente maioritária. A questão é saber quem terá unhas para começar a reconfigurar a esquerda nacional: os chamados jovens turcos do PS? Uma esquerda radical que ainda tenha massa crítica para se reposicionar e falar a um eleitorado mais moderado? Novas forças descomplexadas em relação aos ressentimentos do passado? Uma outra coisa qualquer que não estamos a ver? Depende muito do que for acontecendo na Europa e da qualidade dos protagonistas nacionais.

O manto diáfano do emprego

(Nicolau Santos, in Expresso, 29/08/2015)

Nicolau Santos

    Nicolau Santos

O país tem assistido com alívio à descida da taxa de desemprego, que se cifrou em 11,9% no segundo trimestre de 2015, quando há doze meses estava em 13,9% e em 2013 tinha batido nos 16,2%. A maioria tem assinalado com entusiasmo esta tendência, enquanto a oposição a tenta desvalorizar, sustentando que entre desencorajados, pessoas que emigraram e milhares de outras que estão a frequentar cursos de formação, a verdadeira taxa de desemprego é bem superior. Não foi, contudo, este Governo que definiu as regras como se mede o desemprego. Por isso, há que aceitá-las e olhá-las à lupa para compreender que tipo de emprego está a ser criado e qual o modelo que está a emergir em Portugal após quatro anos de austeridade.

Ora recorrendo à Pordata constata-se que desde o início do século a população empregada reduziu-se em quase 600 mil pessoas (591,8 mil). Com efeito, enquanto em 2000, havia mais de 5 milhões de pessoas empregadas (5.041,3 milhares), atualmente esse número caiu para 4.449,5 milhares. A diminuição fez-se sobretudo sentir nas pessoas empregadas a tempo inteiro (menos 576,7 mil, fixando-se agora em 3.910,8 milhares), ganhando peso as pessoas empregadas a tempo parcial (mais 34,9 mil, atingindo 588,7 mil).

Como se qualifica um modelo assente em baixos salários, precariedade e reduzida proteção ao desemprego?

Olhando depois para os trabalhadores abrangidos pela retribuição mínima mensal garantida (505 euros desde novembro de 2014), constata-se que quase 20% se encontram nesta situação, o que é verdadeiramente surpreendente pois em abril de 2014 esta percentagem era de 13,2% e pulou em seis meses para 19,6% (!), quando entre 2011 e 2013 oscilou entre 11,3% e 12% (boletim do Gabinete de Estratégia e Estudos do Ministério de Economia).

Se olharmos entretanto para a remuneração média para o conjunto da população empregada constata-se que ela é atualmente inferior em 24,5 euros (971,5 euros em outubro de 2011, 947 euros em outubro de 2014). Outro dado interessante tem a ver com o facto de das 620,4 mil pessoas desempregadas no segundo trimestre de 2015, apenas 268.141 (43,2%) estarem a beneficiar do subsídio de desemprego ou de outro tipo de apoio social — o que quer dizer que mais de 352 mil pessoas (56,8%!) desempregadas não recebem qualquer apoio público.

Conclusão: a economia está a criar mais emprego. Mas esse emprego é mais precário e muito barato, enquanto diminuem os apoios públicos aos desempregados. Ora como se qualifica um modelo económico assente em baixos salários, precariedade e reduzida proteção ao desemprego? Vêm-me vários nomes à cabeça e nenhum deles cola com uma economia moderna, dinâmica e inovadora.

E não é por falta de formação: em 2013 houve 17.339 empresas que realizaram ações de formação com a duração média de 33 horas, envolvendo 854.394 trabalhadores (!) e com o custo por trabalhador de 354 euros. Pode não ter resultado. Mas foi um grande negócio.


A Portucel e a Renova

A Portucel é uma das melhores empresas mundiais produtoras pasta de papel, pellets e de papel para escritório. A Renova é uma das mais inovadoras empresas na produção de papel tissue (papel higiénico, lenços, guardanapos, papel de cozinha). São empresas industriais de relevo na fileira da pasta de papel em Portugal e que ainda se encontram em mãos nacionais. Até agora estas empresas eram complementares. Mas este ano a Portucel quebrou o statu quo, ao comprar a AMS — Star Paper, produtora de papel de tissue de Vila Velha de Ródão, e o seu presidente-executivo, Diogo da Silveira, diz que “a questão não é se vamos ultrapassar a Renova, é quando”. Sendo a Portucel privada, entra nos negócios que quer e define os objetivos que entende. Mas parece bastante redutor que a Portucel queira ser maior do que a Renova. Seria bem mais interessante que quisesse ser a maior empresa europeia ou mesmo mundial. Assim, o que uma ganhar perde a outra e o país não beneficia nada.


A lição do dr. Osório

Com regularidade, António Horta Osório desagua na pátria para nos dar conselhos. Desta vez, foi na universidade de verão do PSD, onde sublinhou que “já estamos a viver dentro das nossas posses”. Este é um tema muito caro ao presidente do Lloyds. Compreende-se. Para quem recebeu €15,6 milhões em 2014, mais 50% que no ano anterior, Horta Osório tem a maior autoridade para nos dizer que estávamos a viver acima das nossas posses. Falta-lhe é um bocadinho de bom senso. Ou de pudor.


Negócios que correm bem

Há negócios que correm bem. Um deles é o da Science4You, que produz brinquedos científicos e que acaba de investir um milhão de euros numa nova fábrica, que lhe permitirá duplicar a produção. Liderada por Miguel Pina Martins, que detém 30% da Science4You, a empresa tem também como acionista a Portugal Ventures, capital de risco do Estado, com 49%. A Portugal Ventures, sob a liderança de José Epifâneo da Franca, apoiou várias startups que estão a demonstrar ser histórias de sucesso. Como prémio e apesar de ter larga experiência empresarial, tendo sido o fundador da Chipidea e de mais de 200 personalidades terem subscrito uma carta a pedir que cumprisse mais um mandato, foi substituído no cargo por Marco Fernandes, da DNA Cascais, uma empresa daquela autarquia. Epifâneo da Franca é independente mas não é de esquerda. Como é que se estabelece o primado da meritocracia neste país se exemplos destes se sucedem com regularidade, qualquer que seja a cor dos governos?


aquelas pernas ali a dar a dar

dos homens levam os olhos ao passar

são borboletas canários verde mar

onde mergulho a medo o meu olhar

são promessas que sei sem cobertura

de uma viagem pelo interior natura

aquelas pernas ali a dar a dar

dos homens levam os olhos ao passar

são às dezenas às centenas ao milhar

a desenharem nos passeios pombas brancas

nascem nos pés e vão até às ancas

por um caminho que é bom de passear

aquelas pernas ali a dar a dar

dos homens levam os olhos ao passar

uma claras são outras morenas

umas marias outras manuelas

umas maiores outras mais pequenas

mas as tuas são melhores que todas elas

as tuas pernas aí a dar a dar

que já nem posso este poema terminar

(Manuel Alberto Valente, in ‘Chiado’, in “Poesia reunida — o pouco que sobrou de quase nada”, Quetzal 2015)