Merkel e Draghi discutem bancarrota e substituição do Governo Tsipras por um de tecnocratas

(Jorge Nascimento Rodrigues, in Expresso Diário, 30/04/2015)

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O jornal italiano “La Stampa” avança esta quinta-feira com um cenário que estaria em discussão no Governo alemão e no Banco Central Europeu. E os negociadores gregos vão tentar convencer o Governo de Alexis Tsipras, na reunião desta tarde, a engolir algumas “pílulas amargas”

Alemanha e BCE querem fazer cair Tsipras”, titula esta quinta-feira o jornal italiano “La Stampa”. Segundo a notícia, o Governo da chanceler alemã, Angela Merkel, e o Banco Central Europeu (BCE), liderado por Mario Draghi, estariam a discutir um cenário B “de emergência”. Os ingredientes são uma bancarrota da Grécia sem sair da zona euro – default sem Grexit, como se diz na gíria dos mercados – e a imposição de um Governo de tecnocratas, com a queda do Governo eleito em janeiro e liderado pelo Syriza. A notícia surge depois de fontes oficiais da zona euro terem dito na quarta-feira à Reuters que o Eurogrupo pretende obrigar a Grécia a pagar “um custo político”.

As sondagens são claras sobre as opções do eleitorado helénico, mesmo depois da grande entrevista de Alexis Tsipras na Star TV e da “despromoção” do ministro das Finanças, esta semana. Na mais recente sondagem, da GPO para a Mega TV, 36,5% dos inquiridos votam no Syriza, ligeiramente acima da votação nas eleições de janeiro, e 22% na Nova Democracia, quase seis pontos percentuais menos do que nas eleições.

A hipótese de um governo “pró-europeu”, baseado numa coligação da Nova Democracia com o Potami (um partido novo que entrou no Parlamento em janeiro) e com o que resta do PASOK, não tem base eleitoral. O próprio Antonis Samaras, ex-primeiro-ministro e líder da Nova Democracia, tem-se pronunciado contra. Metade dos inquiridos tem uma opinião positiva sobre o ministro Yanis Varoufakis, que tem estado no centro das polémicas europeias, e 58,3% apoia a estratégia de Tsipras.

A esmagadora maioria dos gregos é contra a saída da Grécia do euro e a favor de um acordo com as instituições europeias

No entanto, a rejeição de uma saída do euro e a opção por obter um acordo tem apoio da esmagadora maioria dos gregos. Só 32% concordam com um referendo, admitido por Tsipras na entrevista desta semana, e apenas 26,3% querem eleições legislativas antecipadas. Um entendimento com os credores oficiais recolhe 78,1% dos inquiridos, com 2 em cada 3 apoiantes do Syriza de acordo, e a manutenção na zona euro é desejada por 75,6%.

Acordo interino continua na estratégia de Atenas

O Grupo de Trabalho do Euro – conhecido pela sigla EWG, que prepara as reuniões do Eurogrupo, o órgão dos ministros das Finanças da zona euro – deu sinais na quarta-feira, em Bruxelas, de que as negociações realizadas tiveram “nota positiva”. O Governo grego tem uma delegação reforçada de 18 membros nas negociações e os credores oficiais esperam que as coordenações política, de Euclid Tsakalotos, e técnica, de Giorgos Houliarakis – os novos negociadores principais gregos – favoreçam a convergência. As reuniões no Grupo de Bruxelas deverão estender-se até domingo, como antecâmara de um acordo na reunião do Eurogrupo a 11 de maio.

O objetivo político do governo de Atenas, segundo o jornal “Protothema”, é conseguir um “acordo interino” em que o Eurogrupo, entretanto, emita uma declaração positiva. Isso permitiria ao BCE, na reunião de 6 de maio, dar luz verde a uma maior exposição da banca grega à dívida grega de curto prazo, autorizando uma maior participação nas emissões de Bilhetes do Tesouro, permitindo ao governo refinanciar essa dívida (2,8 mil milhões de euros já a 8 e a 15 de maio) e outras necessidades de tesouraria. A 6 de maio, o Tesouro grego tem de enviar um cheque de 200 milhões de euros relativo a juros para o Fundo Monetário Internacional (FMI). A 12 de maio, terá de enviar outro, de 766 milhões de euros.

Sem “Varoufexit”, vem aí superpacote

Entretanto, o Governo grego fez saber que não houve um “Varoufexit” (saída de Varoufakis) e que este continua a coordenar globalmente as negociações, nomeadamente o superpacote legislativo que o conselho de ministros discutirá hoje à tarde e que deverá seguir para o Parlamento grego se tiver acordo por estes dias do Eurogrupo.

Os media europeus exploram, até à exaustão, as diferenças entre um “marxista tranquilo” como Tsakalotos e um “marxista errático” e estrela mediática como Varoufakis, alegando que um seria moderado e dialogante e o outro um radical parte pratos, esquecendo que o primeiro é membro do Syriza há 10 anos, foi porta-voz económico do partido no Parlamento antes da vitória eleitoral e é um peso pesado político de Tsipras.

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Varoufakis, por seu lado, era um bloguista independente, veio da Universidade do Texas para a campanha eleitoral de janeiro e daí para ministro. Defendeu durante anos uma “proposta modesta” de renegociação da dívida da zona euro, incluindo a grega, que tivesse o apoio do Governo alemão. A “moderação” da sua estratégia em matéria decisiva – ainda que esteja, por ora, fora dos holofotes -, como a dívida, levou Tsipras a atraí-lo.

Desconfiando de um andamento positivo, a agência de notação Moody’s cortou o rating da dívida de longo prazo da Grécia de Caa1, equivalendo a risco substancial, para Caa2, notação de dívida extremamente especulativa, e com perspetiva negativa. O corte foi motivado por uma baixa expectativa de um acordo imediato em relação à 5ª revisão do andamento do plano de resgate que se arrasta desde agosto do ano passado e por um aumento do potencial de um “acidente” que empurre a Grécia para um incumprimento da “dívida que está no mercado” – ou seja, excluindo os empréstimos do FMI –, incluindo as obrigações em carteira no BCE. Em julho e agosto vencem obrigações num montante global de 7,5 mil milhões de euros em capital e juros.

A imprensa grega tem avançado com informações de que os negociadores da Grécia poderão aceitar concessões adicionais, ultrapassando algumas “linhas vermelhas”, para conseguir um acordo interino

Os analistas vão estar atentos aos pormenores do superpacote. O jornal “Protothema” tem avançado com informações de que os negociadores gregos poderão aceitar concessões adicionais em busca de um acordo interino, ultrapassando algumas “linhas vermelhas”. Poderá haver ajustamentos na “lista de Varoufakis”, de modo a acomodar algumas “pílulas amargas” no âmbito de alterações do sistema de segurança social e das leis laborais (neste campo, com base no trabalho que está a ser desenvolvido com a OCDE e a Organização Internacional do Trabalho) mas sem uma reforma global, como era exigida pela troika no ano passado.

No campo das privatizações, a abertura poderá ser interessante para a própria diversificação de relações da Grécia, com a abertura para privatizar 51% do Porto do Pireu (forte interesse chinês) e do Porto de Tessalónica, bem como a ferrovia, a empresa pública de ferro-níquel e a discussão de concessões nos portos e aeroportos regionais. Excluídos estarão os sectores das águas e da eletricidade.

Fiscalidade, um dos pontos fortes

Um dos pontos fortes do superpacote é a área fiscal, com o desenvolvimento do combate à fraude e à evasão, bem como o alargamento de imposições fiscais (como bens de luxo e na publicidade na TV e nos media digitais) e o leilão de frequências de televisão (os canais são dominados pelo que a revista britânica “The Economist” denominou esta semana como “oligarquia”). Varoufakis pretende uma alteração ao Código Penal que criminalize a fuga e a evasão ao fisco.

A negociação sobre o IVA será particularmente importante. É admitido que o IVA possa caminhar para uma taxa única com exceção da alimentação e dos livros e com ajustamentos no caso do IVA nas ilhas turísticas. Em 23 ilhas – incluindo ícones como Rodes, Santorini, Mykonos e Chios – poderá ser imposta uma taxa especial de pernoitas em hotéis com mais de 3 estrelas e a obrigatoriedade de uso de meio eletrónico de pagamento acima de 50 a 70 euros.

O bom, o mau e o ausente

(Alexandre Abreu, in Expresso Diário, 29/04/2015)

Alexandre Abreu

      Alexandre Abreu

Escrever uma vez por semana, dada a voragem do ciclo noticioso, tem destas coisas: nalguns casos, se não reagirmos imediatamente (ou se outros assuntos se impuserem ), corremos o risco de já chegarmos tarde se apenas escrevermos sobre algum assunto uma semana depois de ele ter saltado para a ribalta.

Ao escrever agora sobre o plano elaborado pelo grupo de economistas próximos do PS coordenado por Mário Centeno  que foi apresentado na semana passada, tenho a clara sensação que é esse o caso – e no entanto o assunto é demasiado importante para que não o retome aqui. É fortíssima a probabilidade do PS vir a formar governo daqui a alguns meses e é também elevada a probabilidade de que este documento venha a constituir a espinha dorsal do seu programa de governo para a área económica e financeira. Logo, é bastante provável que este pacote de medidas, com as alterações que o debate público e as dinâmicas políticas venham a impor, comece a passar do plano à realidade daqui a alguns meses. Debatamo-lo, pois.

O Bom

Deve começar por dizer-se que a “Agenda para a Década” é um documento abrangente, bem estruturado, com profundidade, propostas originais e uma tentativa séria de estimação dos impactos dessas propostas. Em suma, é um documento intelectualmente respeitável – o que em si mesmo poderá não parecer nada de especial até ao momento em que recordamos, por exemplo, o Guião da Reforma do Estado  publicado no ano passado pelo actual governo. Há uma articulação entre diagnóstico, propostas e impactos que é feita de forma estruturada e abrangente: pode-se discutir se as propostas são consistentes com o diagnóstico e se os impactos esperados são plausíveis, mas é possível discuti-lo porque essa articulação é apresentada e sujeita a debate de forma detalhada.

Há também aspectos claramente positivos ao nível do enquadramento e diagnóstico. A sofisticação no entendimento das questões da inovação, da competitividade e do desenvolvimento territorial está a milhas da que é possível encontrar actualmente à mesa do Conselho de Ministros (embora, claro, não seja preciso muito para isso). E, neste plano do enquadramento e diagnóstico gerais, é a meu ver um documento claramente progressista, que denuncia explicitamente a austeridade, a precariedade, a desigualdade, a perda de progressividade do IRS, a promoção da competitividade assente nos salários baixos e a criação de quasi-monopólios privados através das privatizações. A este nível – e apesar das cedências ocasionais à novilíngua neoliberal (como os despedimentos que passam a “separações entre empresas e trabalhadores”) – sou menos crítico do que outros que antes de mim comentaram este documento (como Francisco Louçã  ou João Rodrigues ). Na minha opinião, e como explicarei em baixo, o problema não está tanto neste enquadramento e diagnóstico como na inconsistência entre esse mesmo enquadramento e diagnóstico e o pacote de medidas que é proposto.

E há também muitas propostas concretas que devem ser saudadas. A reintrodução do imposto sucessório, medida óbvia de mitigação da injustiça decorrente da lotaria do berço. A redução do IVA da restauração, cuja aumento pelo actual governo penalizou de forma despropositada um sector de actividade fortemente gerador de emprego, central para o turismo e em que predominam as micro-empresas. A penalização fiscal dos imóveis sem utilização. A penalização das empresas que mais despedem. O reforço do acesso e montantes do RSI, do Complemento Solidário para Idosos e do abono de família. E muitas das medidas propostas nos domínios da educação, da qualificação da administração pública, da simplificação administrativa ou da promoção do sistema cientifico e tecnológico nacional.

O Mau

Já muitos o disseram, mas deve ser dito mais uma vez. A mais funesta e perigosa proposta deste documento – realmente má por acção, que não apenas por omissão – é a proposta de redução das contribuições de empregadores e trabalhadores para a Segurança Social. É uma proposta profundamente inconsistente: reduzir receitas não é, seguramente, uma boa forma de enfrentar os problemas de sustentabilidade que o mesmo documento identifica, mesmo que venha a ser parcialmente compensada por um aumento da base de incidência decorrente de uma expansão do emprego que é do plano dos desejos mas seguramente não das certezas. É socialmente regressiva, constituindo uma forma de plafonamento (mal) encapotado. É perigosa, pois põe em causa um dos alicerces fundamentais do contrato social. E assenta num entendimento completamente errado da natureza dos problemas de procura que a economia portuguesa enfrenta, pois estes não são temporários, do foro da liquidez, mas sim estruturais, do foro da solvabilidade – algo que, no entanto, os economistas da área do PS não poderiam reconhecer abertamente sem se verem obrigados a enfrentar os elefantes no meio da sala que o documento não trata mas que sobre ele pairam com uma sombra esmagadora: as dívidas pública e externa e a sangria permanente de recursos que representam para a economia portuguesa.

O Ausente

E assim chegamos àquilo que, a meu ver, é realmente o aspecto mais preocupante deste documento: aquilo que dele está ausente. Não estou a falar de medidas que, por um ou outro motivo, gostaríamos eventualmente que o PS perfilhasse sem que seja esse o caso; estou a falar, isso sim, de medidas que permitissem enfrentar de forma consistente os problemas que o próprio documento identifica.

O documento denuncia a redução da progressividade do IRS como um problema, mas o que propõe como resposta a este problema é, tão somente, a eliminação da sobretaxa. Nem sequer, por exemplo, a reposição dos escalões que o actual governo eliminou, reduzindo a progressividade de forma desprezível. Ou o englobamento das mais-valias bolsistas no cálculo da taxa de imposto, que seria da mais elementar justiça fiscal mas continua à espera de um governo que a ponha em prática.

Identifica a penalização a que são sujeitos os falsos recibos verdes, mas pouco ou nada propõe para os erradicar ou para desagravar as imposições contributivas absurdas a que estes trabalhadores são sujeitos.

Critica as privatizações que deram origem a quasi-monopólios privados, mas em momento algum admite reverter as privatizações que possam ter prejudicado o interesse nacional – apenas se promete vagamente reavaliar as privatizações adicionais futuras.

Denuncia a promoção da competitividade assente nos baixos salários, mas em nenhum lado encontramos vestígios de medidas de valorização do trabalho e dos salários, nem sequer no sentido da reposição do que foi retirado pelo governo actual: nem nos feriados, nem no salário mínimo, nem na contratação colectiva, nem nos horários de trabalho. Pelo contrário: a aposta, tal como ressalta do cenário macroeconómico, é na manutenção dos salários baixos com o objectivo de permitir o aumento do emprego. As propostas socialistas para corrigir o desequilíbrio sem precedentes na repartição funcional do rendimento que o actual governo introduziu consistem, basicamente, em deixar tudo como está.

Defende uma maior segurança laboral e critica a precariedade, mas nem sequer propõe repor as indemnizações por despedimento nos níveis em vigor antes da actual legislatiura.

Critica a austeridade e os sacrifícios pro-cíclicos, mas propõe-se alcançar saldos primários entre 1,8% e os 3,2% do PIB entre 2016 e 2019. Claro está, não poderia deixar de fazê-lo sem pôr em causa o adesão incondicional aos dogmas da intocabilidade da dívida e do Tratado Orçamental. Esses são sacrossantos, mesmo que a conciliação de tais dogmas com a exequibilidade do cenário macroeconómico final que é proposto exija uma combinação de desenvolvimentos macroeconómicos que nunca foi alcançado na história da economia portuguesa , a par de uma fé pouco fundamentada na capacidade dos fundos europeus gerarem, por si só, a inversão da dinâmica do investimento privado. A este respeito, vale aliás a pena assinalar que é errada a ideia que neste documento os socialistas se proponham recuperar a economia pelo lado da procura, por contraste com as propostas do lado da oferta do PSD/CDS: na Agenda para a Década, a putativa recuperação do investimento e do produto advém maioritariamente – no plano da fé, pelo menos – da alteração das condições do lado da oferta, não da procura.

E depois há as outras ausências gritantes: a ausência de propostas para a regulação da banca. A dívida pública e a sangria que os juros representam. Uma das maiores dívidas externas do mundo. Ou a dependência dos cenários – inicial e final – face a uma baixa das taxas de juro que mais cedo ou mais tarde terá um fim.

Poder-se-á dizer que não é justo criticar este documento pelo que lá não está, visto que algumas omissões poderão vir a ser colmatadas. Se assim for, tanto melhor – mas pelo menos para já, é o próprio documento que convida a que o façamos quando afirma que deve ser avaliado e julgado pelo conjunto e não pelas medidas individualmente consideradas.

O polícia bom do neoliberalismo

O grande problema do pacote de medidas proposto pelo PS não é que o diagnóstico, em termos gerais, esteja fundamentalmente errado, nem que as medidas propostas, individualmente consideradas, sejam funestas como quase invariavelmente o têm sido na actual legislatura. O grande problema é que as medidas propostas são profundamente insuficientes para enfrentar, com um mínimo de eficácia, os problemas que o próprio documento identifica – quer ao nível da justiça social, quer ao nível da dinâmica macroeconómica.

Qual “polícia bom” do neoliberalismo português, o PS propõe-se repor ou restaurar uma parte relativamente menor do muito que foi destruído ou transformado perniciosamente pela direita. E isso, claramente, é muito pouco.

Mercados financeiros satisfeitos com novas máscaras gregas

(Jorge Nascimento Rodrigues, in Expresso Diário, 28/04/2015)

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A Bolsa de Atenas continua a acumular ganhos e os juros da dívida grega caíram significativamente desde o anúncio, na segunda-feira, de que a Grécia tem uma equipa de negociadores com os credores oficiais “refrescada”

Os mercados financeiros reagiram positivamente à saída do mediático, e polémico, ministro das Finanças grego, Yanis Varoufakis, da primeira linha do embate das negociações com os credores oficiais da Grécia.

Recorde-se que Varoufakis foi atacado fortemente pelos seus pares na última reunião do Eurogrupo (órgão dos ministros das Finanças da zona euro), em Riga, na sexta-feira passada, envolvendo insultos a que o ministro grego respondeu citando Roosevelt e reenviando no tweet um cartoon jocoso à atenção dos parceiros de reunião.

Com o clima no ponto mais baixo, o primeiro ministro grego, Alexis Tsipras, e a chanceler alemã, Angela Merkel, pegaram no telefone no domingo e decidiram manter um contacto direto, uma espécie de telefone vermelho entre os dois, para evitar que as negociações descambem para algum “acidente”, o tão falado “acidente grego”, que nunca se sabe se acaba apenas em incumprimento de dívida externa já em maio ou mesmo em transição para uma saída do euro (a já famosa contração em inglês Grexit).

“Tenho de admitir que há um clima negativo. Eles [os pares do Eurogrupo] não querem negociar com Varoufakis”, referiu Tsipras na sua primeira entrevista como chefe do Governo ao programa Ston Eniko, do canal privado Star TV, dada na terça-feira à noite, ao longo de três horas.

Varoufakis, um “ativo” com 55% de apoio popular

Os media, os credores oficiais e as equipas de negociação no designado Grupo de Bruxelas e no Grupo de Trabalho do Euro (que prepara as reuniões do Eurogrupo) têm de se habituar a dois nomes novos nos lugares de chefia das negociações do dia-a-dia: Euclid Tsakalotos e Giorgos Houliarakis. Por sinal dois académicos, como Varoufakis, com doutoramentos no Reino Unido, o primeiro em Oxford e o segundo na Universidade de Warwick, até há algum tempo professor na Universidade de Manchester, onde dava aulas de Macroeconomia e Economia do Trabalho. Desde que o governo liderado pelo Syriza tomou posse, os dois já participaram em negociações e Tsakalotos acompanhou Varoufakis em muitas reuniões Varoufakis.

São ambos discretos. Tsakalotos, ministro-adjunto dos Negócios Estrangeiros, vai dirigir a equipa política; Houliarakis, chefe da comissão de peritos económicos, chefiará a equipa técnica.

Tsipras não demitiu Varoufakis, cuja cabeça era pedida por vários analistas nos media internacionais – interpretando os desejos dos pares do Eurogrupo – e pela Oposição no Parlamento grego, sobretudo por parte da Nova Democracia e do PASOK. O “refrescamento” foi entendido como uma “despromoção” de Varoufakis e o PASOK chegou mesmo a falar da “castração” do académico-ministro. Na entrevista de ontem, Tsipras considerou-o um “ativo” do país e atacou Mario Draghi, presidente do Banco Central Europeu, e Jeroen Dijsselboem, presidente do Eurogrupo, por terem faltado à palavra dada.

Os “erros” nas negociações com os credores oficiais a que Tsipras se referiu, e também Tsakalotos no Parlamento grego, têm a ver com o facto de a delegação grega – e Varoufakis à sua cabeça – ter tomado a palavra dada pelos parceiros de reunião como válida e não ter exigido compromissos escritos.

“Poucos apostarão na demissão de Varoufakis, que, na verdade, é um dos membros mais moderados do partido [Syriza]. Mais, provavelmente ele voltará a ter destaque . logo que as negociações cheguem a uma conclusão”, escreve o analista Chris Papadopoullos no site City AM, de Londres. Uma sondagem deste fim de semana dava a Varoufakis um apoio de 55% entre os inquiridos pela Alco para o jornal “Protothema”

Bolsa de Atenas eufórica e juros da dívida grega em queda

O anúncio do “refrescamento” das equipas negociadoras com os credores oficiais foi feito na segunda-feira pelo governo e as bolsas europeias registaram um ganho de 1,16% ao final do dia e o mercado secundário da dívida soberana da zona euro acalmou, com uma queda significativa dos juros das obrigações gregas em todos os prazos. O que contagiou positivamente os restantes periféricos, com os juros das Obrigações do Tesouro português a cair para 1,91%, nove pontos base abaixo do fecho de sexta-feira passada. Finalmente descia do patamar dos 2% em que se mantinha desde 17 de abril.

Esta terça-feira a trajetória de descida continua a registar-se para os juros gregos. No prazo a 2 anos, desceram de 26,4% a 24 de abril para 20% pelas 15h de hoje. No prazo a 10 anos, a maturidade que serve de referência nas comparações (e determina o prémio de risco de uma dada dívida soberana), a queda foi de 174 pontos base, de 12,68% para 10,94% no mesmo período, um nível que já não se verificava há um mês. A bolsa de Atenas continua com ganhos. Nas últimas cinco sessões, incluindo a desta terça-feira, a valorização do índice geral já é superior a 14%.

No entanto, o contágio positivo aos países periféricos não se verifica esta terça-feira, com os juros das obrigações portuguesas, espanholas e italianas a 10 anos em alta, com destaque para as Obrigações do Tesouro português, que estão, de novo, com juros próximos de 2% e a liderar as subidas.

Os mercados financeiros esperam que os dois novos coordenadores de negociações acelerem as negociações e contam com um compromisso já no Eurogrupo a 11 de maio. Mas a mudança de máscaras gregas não altera, por enquanto, a matéria de substância, como muitos analistas sublinham a várias vozes da zona euro. O governador do Banco de França, Christian Noyer, disse claramente esta terça-feira que o apaziguamento de tensões ajuda, mas “não muda a substância de modo algum”.

Um funcionário europeu, citado pelo site Capital.gr, referiu que “qualitativamente nada mudou”, mas que o contacto direto entre Tsipras e Merkel é muito positivo para tranquilizar os mercados financeiros. O primeiro-ministro grego fez ontem na entrevista um rasgado elogio a Merkel, agora “que a conheceu pessoalmente”.

Impasse conduz a referendo

Ora a “substância” é distinta para as duas partes – como o ministro Varoufakis não se tem cansado de escrever e dizer, e como recordou Tsipras na entrevista de ontem. O governo grego tem linhas vermelhas traçadas. Até se admitem algumas concessões mais na retaguarda dessas linhas – claramente em matéria de privatizações, um ponto que foi salientado na imprensa alemã desta terça-feira, nos comentários à entrevista de Tsipras.

O ponto do primeiro-ministro grego é que os gregos já andaram 70% do caminho para a convergência e que falta aos credores oficiais e aos parceiros do Eurogrupo andarem agora os 30% que faltam connosco. O governo tem esperado que seja possível um acordo provisório, interino, nos pontos de convergência já possíveis, mas o último Eurogrupo fechou a porta. Como a revista “The Economist” sublinhou, os pares do Eurogrupo continuam a pretender o cenário de uma “capitulação” grega. Ora as áreas mais críticas sem convergência já o eram inclusive, em boa medida, nas negociações com o anterior Governo, liderado por Antonis Samaras. E precisamente por essa razão, o exame do andamento do programa de resgate não foi concluído e a situação vem-se arrastando desde agosto do ano passado, chama a atenção Nick Malkoutzis, editor-adjunto da edição inglesa do jornal grego “Kathimerini”.

No caso do impasse no Eurogrupo se manter, apesar de esforços de convergência por parte dos negociadores gregos, o Governo helénico poderá chamar os eleitores a pronunciarem-se sobre as opções que preferem. Colocou de lado a convocação de eleições legislativas antecipadas – que, segundo as sondagens divulgadas no fim de semana, continuariam a ser ganhas pelo Syriza ,com uma votação próxima ou mesmo superior à obtida em 25 de janeiro – e deu a entender que poderia recorrer a um referendo – opção que ainda não mobiliza a maioria dos inquiridos nas sondagens.