Meu caro Ludwig Pan

(José Pacheco Pereira, in “Sábado”, 27/02/2015)

Pacheco Pereira

    Pacheco Pereira

Espero que o mau tempo que tem andado por essa Queensland não te tenha posto em cuidados ou feito voar algum chapéu preferido, ou quiçá alguma jovem aborígene que tenha sido muito genuinamente acolhedora para o germano do outro lado do mundo que anda à procura de ouro. Cuida-te.

Eu sei que tu és dos alemães bons, vagamente louco, vagamente hedonista, vagamente idealista, vagamente perdido, vagamente achado, vagamente teimoso, vagamente vagamente, mas tira-te de vires cá por estes dias. Isto anda por cá tão pouco alemão que estás melhor com os aborígenes, mesmo com vento e chuva.

Numa praça central de Lisboa está um grande cartaz em alemão que diz “eine Regierung die Deutscher als die Deutsche ist“. Ia batendo com o carro contra o cartaz a primeira vez que o vi, mas neste caso a nossa pequena organização esquerdista que o fez acertou, “um governo mais alemão que o alemão”, o meu, mais do que o teu. Lá está a senhora Merkel feliz a congratular um rapaz muito alinhadinho e embevecido, a sorrir e a olhar de olhos semicerrados para o céu. É dos casos em que uma imagem explica tudo, mesmo com muito Photoshop.

 Mas não diz tudo. Não diz que o rapaz alinhadinho é perigoso e vingativo, junto com uma senhora também muito alinhadinha, que é ministra e que se especializou a mentir ao parlamento sobre os swaps. Como este País é institucionalmente irresponsável não lhe aconteceu nada, pelo contrário teve um boost para a sua carreira. Perigosos mesmo que, se olharmos bem e sem a nossa miserável complacência, tudo aquilo transpire essa sinistra expressão portuguesa “poucochinho”. Eu sei o que te passa pela cabeça neste instante: o “poucochinho” sempre foi muito perigoso, tu que lês romances russos e conheces a história de França sabes.

Foi o que aconteceu na semana passada, com a nossa ministra muito alegre, contente e compostinha ao lado do teu Wolfgang Schäuble, que é como tu sabes duro de roer e mau, mas muito capaz. Schäuble, que sabe mais disto do que 100 governantes portugueses em fila indiana, usou-a para dar uma lição aos malvados dos gregos. Ficou-lhe muito barato e, para ele e para o seu governo, pouco comprometedor. Ali estava a viva explicação de que o “programa” e a supervisão da troika “resultaram”.

 Mas “resultaram” como? Neste dia que te escrevo sabe-se que a nossa dívida subiu de 128% para 128,7%. O Governo contava com 127,2% do PIB, e foi com essas contas que fez o Orçamento para 2015. Pouco importa, este é dos números que não dá origem a sucessivas conferências de imprensa e declarações de vários ministros, com Portas à cabeça, sempre que há 0,1% de melhoria de qualquer número favorável. Claro que há alguns números positivos, mas são escassos e longe de serem uma série consistente e, muitas vezes, contrariados por números maus. Mas como estamos em ano eleitoral, por cá tudo bem. Só que era evitável que a nossa ministra fosse fazer o discurso de propaganda caseiro para, sob a batuta de Schäuble, fazer de anti-Varoufakis. Poucochinho.

Foi um espectáculo deprimente que muito envergonhou os portugueses, de tal maneira que os governantes andam numa roda viva desde essa cena para cá a tentar explicar que aquilo não foi o que foi. O problema é que se vai sabendo cada vez mais que a encenação alemã antigrega foi seguida por algo muito mais preocupante, vingativo e prejudicial para os interesses nacionais: Portugal foi um dos que mais dificuldades colocou a um acordo e quem mais quis que ele fosse penalizador para os gregos.

E isto é mesmo um espanto. Um País que não tem política externa para nada, que não balbucia uma diferença qualquer sobre coisa nenhuma, que passou estes anos de “protectorado” oficial a ser mais manso que o mais manso cordeiro, que leva as mais monumentais bofetadas de Angola e vai lá a correr oferecer a outra face, de que não se conhece uma única nuance, incomodação, interesse próprio, cerrar de sobrancelhas, nada, nada, nada, sobre qualquer matéria internacional, agora armou-se em falcão dos gregos pela trela dos alemães. Claro que, mal o falcão faz a sua falcoaria, pirueta, caça pequena, voo acrobático, regressa à luva de coiro do dono, que lhe põe a habitual venda.

É, são perigosos e vingativos e já não é a primeira vez que se assiste a cenas destas. Os alvos foram os portugueses em geral, os funcionários públicos, os reformados, o Tribunal Constitucional, que tendo contrariado o Governo, ou obtido, pela aplicação da lei, que qualquer medida iníqua fosse impedida, ouviram logo a seguir um “ai sim, então vão ver como vai ser pior”. Mas agora vão mais longe: os gregos têm de ter mais austeridade para não serem o mau exemplo que pode desencaminhar os que até agora estavam domados pela “inevitabilidade” e podem sonhar outros caminhos. Não há outros caminhos e lá solta Schäuble o falcão lusitano para dar umas voltas à sala do Conselho ou do Ecofin.

Pois é “eine Regierung die Deutscher als die Deutsche ist“. Desculpa lá, meu bom Pan, que estás noutra e votaste no SPD. Votaste no SPD!!! Poucochinho. Então também tens culpa! Não te escrevo durante uma semana.

Até mais ver.

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As cataratas europeias

(Eduardo Paz Ferreira, Expresso, 28/02/2015)

sinfonia

Professor catedrático diz que a Europa necessita de uma intervenção para afastar a visão enevoada e a dificuldade de ver à distância.

O mês que decorreu após as eleições gregas, tal como o período que as antecedeu constituiu, seguramente, uma experiência pesada para os políticos e os cidadãos gregos mas, também, para todos quantos acreditam e querem uma Europa unida, forte e democrática. Em síntese, tornou-se especialmente evidente que, como assinalei no meu último livro, se tinha passado da Europa de Schuman à não Europa de Merkel.

Mesmo para quem tinha poucas dúvidas quanto ao desejo de Berlim de criar uma Europa alemã em vez de se perspetivar como uma Alemanha europeia (a velha angustia de Thomas Mann), o tipo de chantagem e intromissão nas eleições gregas situou-se umas oitavas acima do esperado, numa banda sonora de ressonância wagneriana, mas com épicos bem menos impressivos.

Sem qualquer pretensão de ser exaustivo — e seria muito difícil consegui-lo — recorde-se apenas algumas recentes declarações de Schäuble: “Sinto muito pelos gregos. Elegeram um Governo que de momento se comporta de maneira bastante irresponsável”, quando se batia contra a hipótese de qualquer acordo ou o desdém sorridente com que após o acordo comentou “o encontro com a realidade é sempre muito duro. Isso também é frequentemente válido para os governos. Governar é um encontro com a realidade e a realidade habitualmente não é tão bonita como os sonhos”. Ah!, e claro que não resistiu ao grosseiro comentário de que Tsipras e o seu extraordinário ministro das Finanças não tinham a mínima ideia do que estavam a fazer.

As suas palavras ecoam no eleitorado alemão e, de modo especial na comunicação social. O “Die Welt” proclamou que “Schäuble sabe a linguagem que Atenas conhece” e o “Bild”, num tom que me lembrou os tempos de Salazar e do “Diário da Manhã” e, seguramente, teve antecedentes no período negro da história alemã, titulou: “A Alemanha diz: ‘Obrigado, Wolfgang Schäuble’”.

Mas a Europa alemã tem raízes poderosas desde logo na Holanda, ali tão perto. O socialista Jeoren Dijsselbloem, presidente do Eurogrupo, foi inúmeras vezes fotografado e filmado olhando com ódio profundo para Varoufakis. Ao mesmo tempo, fez de tudo para inviabilizar o acordo e até conseguiu fazer desaparecer um programa razoável elaborado pela Comissão Junker.

De Junker e do seu papel nesta crise ficarão as fotografias em que segura ternamente na mão de Varoufakis e, sobretudo, a sua inesperada e quase comovente — porque feita num momento em que todos os poderes se erguiam contra a Grécia — declaração: “Pecámos contra a dignidade dos povos, especialmente na Grécia, em Portugal e também na Irlanda. Eu era presidente do Eurogrupo e pareço estúpido em dizer isto, mas há que retirar lições da história e não repetir os erros”

Deploravelmente diferente foi a atitude dos diversos líderes socialistas e sociais-democratas, que tinham tido palavras de simpatia para Tsipras e Varoufakis, como os franceses, italianos e austríacos alinharam na unanimidade da primeira reunião do Eurogrupo tal é o poder da Alemanha. A gravata que Renzi dera ao primeiro-ministro grego para pôr no dia do acordo era afinal um garrote.

Impressiona, especialmente, a cobardia destes partidos que, perdidos há largas décadas num espectro político em que não conseguem encontrar espaço, não compreendem que, ao secundar todas as políticas conservadoras, apenas abrem espaço para seguir o destino do PASOK e para que o eleitorado os ignore.

A batalha de David e Golias irá continuar e está longe de saber-se como irá acabar mas, mesmo que se pretenda valorizar o recuo grego que foi claro, o que parece certo é que para a generalidade dos cidadãos europeus começou o primeiro dia da sua vida, percebendo que é possível ter voz e que quando mais governos se juntarem aos gregos as coisas mudarão.

Para já, é claro que temos uma União que se compraz em esmagar os fracos, que esqueceu os valores da solidariedade e da democracia e que só sabe tirar prazer da distanciação em relação aos povos e às suas necessidades. É esta Europa, obcecada pela Grécia, que é incapaz de lidar com a crise da Ucrânia, com o drama do Médio Oriente e com a morte dos imigrantes desesperados que tentam atravessar o Mediterrâneo. É esta Europa que se apaga na cena internacional.

Esta é uma Europa que necessita de uma urgente intervenção às cataratas, que lhe devolva a visão enevoada e a dificuldade de ver à distância. O meu conselho é não só o de alguém que ama o projeto europeu, mas também de quem esta semana foi operado às cataratas e que, por isso, tenta solidariamente, que também a União se trate.

A mesa, a Schadenfreude e a vigilância

(Pedro Adão e Silva, in Expresso, 28/02/2015)

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Perante um processo negocial, que a Europa devia aproveitar para dar um passo em frente, reemerge o egoísmo e, pior, uma satisfação obscena com a humilhação de povos soberanos.

Com uma candura surpreendente, o ministro Rui Machete dizia há dias que “o Governo português estará sentado no lado oposto do grego na mesa de negociações”. A declaração é reveladora do estado do processo de integração. Uma Europa politicamente bloqueada em torno de uma negociação incapaz de ver para lá de ganhos táticos de curtíssimo prazo dos Estados-membros. Onde existiu, ainda que por um momento fugaz, um interesse comum na busca de um espaço de desenvolvimento e liberdades, surge agora uma mesa em torno da qual os governos vão gerindo as suas conveniências: umas vezes de um lado, outras do lado oposto e, como passou a acontecer com Portugal, a maior parte do tempo escondendo-se debaixo do tampo, esperando que ninguém dê por nós. Não funciona.

Com um cinismo que chega a arrepiar, o ministro Schäuble comentava, à saída da enésima reunião do Eurogrupo, e perante um princípio de acordo, que “os gregos vão ter dificuldades em explicar este acordo aos seus eleitores”. Será, porventura, um acaso, mas só em alemão é que há uma palavra para descrever o prazer que podemos sentir face ao falhanço alheio: Schadenfreude. Perante um processo negocial, que a Europa devia aproveitar como uma oportunidade para dar um passo em frente (afinal foi o que aconteceu em momentos críticos anteriores), reemerge o egoísmo e, pior, uma satisfação obscena com a humilhação de povos soberanos. O filósofo alemão Schopenhauer, numa citação muito glosada, disse “a inveja é um sentimento humano, ter prazer com a Schadenfreude é diabólico”. Não funciona.

Com um realismo chocante, esta semana, a Europa colocou o bom aluno, que ainda há dias acenava docilmente sentado do lado certo da mesa, sob “vigilância apertada”. O bom aluno reagiu com incompreensão. Tinha feito as reformas estruturais que lhe haviam encomendado, prestado vassalagem ao professor e, no fim, os efeitos do ajustamento não tinham sido os anunciados. O estrangulamento orçamental e as miríficas reformas estruturais, que com tanta fé o Governo tinha concretizado, afinal não tinham resolvido os “desequilíbrios económicos excessivos”. Um dia depois, a mesma Comissão Europeia, revelando uma propensão incontrolável para a esquizofrenia, afirmava: “O sistema de proteção social português não foi capaz de lidar com o aumento da pobreza nos últimos anos, salientando que os cortes nos apoios sociais afetaram desproporcionalmente os mais pobres”. A mesma Comissão Europeia que, antes, tinha saudado efusivamente o ímpeto reformista do Governo português, quando este cortava com vigor prestações sociais. Não funciona.

Quando as coisas não funcionam, o razoável é alterar o rumo. Caso contrário, mais cedo ou mais tarde, o falhanço revelar-se-á em todo o seu esplendor. Se nada mudar, é para lá que caminha, a um ritmo muito próprio, o projeto de integração europeia.